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Amizade


Um Amigo, é saber onde pousar a mão. Ter a medida certa de até onde podemos ir, naquilo que dissermos. Fidelidade de não esquecer a voz. Perdoar com alegria. Sangue da memória, silêncio partilhado, entendimento cúmplice, confidência de Outono, adivinhação pressentida, comunhão laica. Percebermos quase tudo. É pensar que seria melhor que a morte nos pudesse atender primeiro. 
 
Alberto Soares, in Arpose
 


6 motivos para 1 cenário

O melro negro que, do mármore branco, vai para a chaminé.
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direcção ao dia.


Alberto Soares, aqui

Paciência

De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
(...)

Alberto Soares, Escrito Para a Noite



Para APS, que gosta de pássaros

... DE PASSAREM AVES
                                           À memória de Sá de Miranda


Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora, 
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.


Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.


Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.63




Perversa Idade

Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20


Outono

Vibram sílabas ao vento e os cabelos
brancos esvoaçam como aves fustigadas,
frágeis e furtivas
para sul.

Águas rompem de um incerto futuro
como as pedras ficam
quietas para sempre, conformadas
no infinito.

Sobe da terra um bafo morno,
materno, cada vez mais frio,
e a morte é a grande abstracção
depois da noite maior.

Alberto Soares

[poema retirado do Arpose



Como a alma se faz água

Existes? não existes? imagino
como a alma se faz água
e o coração maravilha
quando na sombra da tarde
me atravessas pela vida.

Alberto Soares, Equilíbrio, Caminho da poesia, p.81


Depois da noite

Olhos de maio rios muito claros
trazendo soltos seixos de um cinzento
que em breve se mistura de silêncio
brando. É tarde pra movê-los

do meu rosto ao teu que trouxe dedos
desprendê-lo da minha boca ébria
que a dizer-te se liberta a pouco e pouco
esta alegria. Fosse haver

depois da noite um dia sucessivo
não feito mais do que se permitir
ser tudo para nós e não mover-se
nunca o sentimento de deixar-te

sendo completo porque não termina
todo o amor que fica por fazer. 

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.44



Estes dias

Compõe a lógica interior dos factos:
vais entrar na paz da simetria
no lugar
onde o azul se faz
e a noite vai nascendo devagar.

Alberto Soares, Equilíbrio, Caminho da Poesia, p.41


Canção

Este ritmo pousado não tolera mais
a sombra que inicias cidades escondem-se
assustadas do que pensas das minhas
insónias as palavras recuperam a força
e munem-se de garras ou soletram
de excessiva ternura o teu nome em segredo:
reunem as vogais mais doces para múltiplos
desastres
amadurecem tensas como as uvas.

São o feitio de uma escova no cabelo cercam-
-te de luz e trazem-te magnética e descalça
à minha rua por túneis de violência em direcção
ao dia.
De tudo aquilo que proibem amo-te

com o rigor incompassado de uma cheia
uma alteração sinistra de todos os sentidos
buscando a levíssima queda última
de pássaros que se guiam como cegos
de pedra em pedra aguda que não sabem
morrer em vôo como no teu sangue
límpido amanhecer de súbito e de noite.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.15


Pássaros

Passam
tão próximos não sabem
destes pássaros macios
que crescem com a noite e não cessam
de cantar nem adormecem nunca.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.30



Cantilena doce

Nonagésimo dia que não fosse
e como sê-lo ainda cantilena
doce nos ouvidos vento insone
ó maravilha sobreposta amena

por tanta cela amarga no regresso
de cada ramo tenro. Este arredio
pássaro preso de quantas breves sílabas
cortantes a moverem-se de exílio.

Ou na sombra repete como ver-te
concertina da noite quase cega
à minha voz e só para contigo
essa música nova que se abria

ó toda toda feita de sossego
por sobre o coração fundo e ferido.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.41


Escrito para a noite

É tão difícil viver com esta gente trazer-te
dentro de mim numa atenção discreta

esconder-te viva respirar
o ar pequeno e leve em que te moves.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.32


Nota: Há poemas que se guardam no coração e por isso estão sempre próximos. Aos que não apreciem repetições, as minhas desculpas.

A memória

Não envenenem mais
o peso
das coisas sem idade.

Deixem-nas
amorosamente repousadas,
levemente esquecidas,
levemente lembradas

- um lago calmo
de águas densas e paradas.

(1965-2010)

Alberto Soares, in «Arpose»



Ingmar Bergman, Saraband, 2003

Irmão vento

Um vento novo sucedeu rompendo
por dentro a procurar-nos um do outro.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.31.



Maio, maduro Maio...

«O que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa
Agustina Bessa-LuísDicionário Imperfeito, Guimarães Editores,  p.115




Para APS

Madrugada


Contágio azul de pele aonde nasce
da noite a inocência ou o desastre.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.13




Giacomo Puccini, Tosca; realizador: Benoît Jacquot
Angela Gheorghiu (soprano), Roberto Alagna (tenor)

Genesis




Há uma força que só em ti repousa
é inútil cansá-la adormecer cegar
o seu destino. Porque não transige
nem se apazigua.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.35

Luz



É tão difícil viver com esta gente trazer-te
dentro de mim numa atenção discreta

esconder-te viva respirar
o ar pequeno e leve em que te moves.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.32