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A inteligência




(...) a inteligência, embora divina e digna de toda a veneração, tem o costume de se acoitar nas mais repugnantes carcaças, além de que infelizmente se comporta como um canibal entre as restantes faculdades, de forma que muitas vezes, quando o Espírito se agiganta, o Coração, os Sentidos, a Magnanimidade, a Caridade, a Tolerância, a Bondade e todas as demais ficam quase sem espaço para respirar. Daí a alta conta em que se têm os poetas; daí a baixa conta em que se têm uns aos outros; daí as inimizades, as injúrias, as invejas e as querelas em que constantemente se empenham; daí a volubilidade com que as dão a conhecer; daí a avidez com que exigem simpatia pela sua causa;(...)

Virgínia Woolf, Orlando - Uma biografia , Relógio D'Agua Editores, p.149-150 

       

Geometrias




A arte exprime, por meio dos traçados geométricos a que recorre, uma gama de relações entre os seres ideais que concebe; essas relações não são puramente descritivas nem unicamente racionais. Talvez seja mais legítimo falar de uma geometria "emblemática", onde se conjugam duas ordens de "figuras", uma delas constituída pelo código de sinais convencionados da comunicação utilitária e social, a outra pelo léxico dos símbolos, encarados aqui como sinais do que é linguisticamente incomunicável, como homologias necessariamente precárias daquilo que se atinge, não por comunicado, mas por comunhão.

Lima de Freitas, Almada e o número, Editora Soctip, p. 103

O rumor dos dias




Perserverança a mais. Perserverança
até ao sensabor do inviável
sem saber se o tempo é de mudança
ou se o silêncio é que é inesgotável.

Corre o bicho das contas à lembrança:
menos por menos torna-se improvável
que dê mais. À custa da esperança
se torna a mesma esperança inevitável.

Curvemos insondáveis os narizes
nas águas plurimansas e capazes
de nos passar de fracos a felizes.

Sejamos entre os bons melhores rapazes
(os Zês ou os Ypsilons ou os Xizes)
repetindo que a sorte é dos audazes.

Joaquim Pessoa, Sonetos Perversos, Litexa, 1984, p.73

Luz



É tão difícil viver com esta gente trazer-te
dentro de mim numa atenção discreta

esconder-te viva respirar
o ar pequeno e leve em que te moves.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.32