Troianos

São nossos esforços, os dos infortunados;
são nossos esforços como os dos troianos.
Conseguimos um pouco; um pouco
levantamos a cabeça; e começamos
a ter coragem e boas esperanças.

Mas sempre surge alguma coisa que nos pára.
Aquiles junto do fosso à nossa frente
surge e com grandes gritos assusta-nos.-

São nossos esforços como os dos troianos.
Cuidamos que mudaremos com resolução
e valor a contrariedade da sorte,
e estamos cá fora para lutar.

Mas quando vier o momento decisivo,
o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;
a nossa alma fica alterada, paralisa;
e em redor das muralhas corremos
à procura de nos salvarmos pela fuga.

Porém a nossa queda é certa. Em cima,
nas muralhas, já começou o pranto.
Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.
Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.

Konstantinos Kavafis, Poemas e Prosas
trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, p.33




Além

Só sei que a música é um 'sine qua non' na minha existência. Redefine a percepção que tenho de mim mesmo, ou melhor, aquilo que eu busco no transcendental. Por outras palavras, demonstra-me a realidade de uma presença, de um 'além' factual, que resiste à circunspecção analítica ou empírica.


George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Relógio d'Água, p.95




No aniversário de MR

O livro é o salva-vidas da solidão.

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

O livro que espalma a flor nas suas páginas transforma-a em borboleta.

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, uma selecção,
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim



Vídeo surripiado ao Prosimetron, no aniversário de MR. Parabéns!

Teleologia

Atravessamos perigos sem saber.
Abismos.
Condores.
Causas sinistras.

Nos intervalos cíclicos votamos
seguir em frente.

Que fazer, não fazer
nestes compromissos
a que nos entregamos?

Perigos não previstos
surgem nos abismos
da realidade.

Sinistras aves, a verdade simples,
descem abismos
sempre quando somos.

Ruy Cinatti, archeologia ad usum animae
Editorial Presença, colecção forma, p.34


As Fúrias

(...) O futuro
o ouvirás, quando surgir. Antes disso, esqueçamo-lo,
que o mesmo vale que começar logo a gemer.
Virá claramente com a luz que o vir nascer.
Seja bem sucedida, depois disto, a acção, (...)

Ésquilo, Agamémnon, 248-257,
in Hélade - Antologia da Cultura Grega, org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Ed., p.227


Natal

E nessa luz estás tu;
mas eu não sei onde estás,
não sei onde está a luz.

Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética
trad. José Bento, Relógio D'Água, p.162




Para APS, MR e Ana, com votos de Boas Festas.

Perversa Idade

Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20


Saltério

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Herberto Helder, O Bebedor Nocturno - poemas mudados para português
Assírio & Alvim, p.15



Outono

Vibram sílabas ao vento e os cabelos
brancos esvoaçam como aves fustigadas,
frágeis e furtivas
para sul.

Águas rompem de um incerto futuro
como as pedras ficam
quietas para sempre, conformadas
no infinito.

Sobe da terra um bafo morno,
materno, cada vez mais frio,
e a morte é a grande abstracção
depois da noite maior.

Alberto Soares

[poema retirado do Arpose



No limbo...

No limbo todos os dias são Domingo.

Ramón Gómez de La Serna, Greguerías
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim, p.57