E tocará esse piano ...
Uma infância
MATTHIEU GALEY - Há (...) um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?
MARGUERITE YOURCENAR - Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, havia muita gente para me fazer golas em bordado inglês ou para me oferecer bombons.
( De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar, conversas com Matthieu Galey, Relógio de Água, p.23-24)
Amor
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.191
Troianos
São nossos esforços, os dos infortunados;
são nossos esforços como os dos troianos.
Conseguimos um pouco; um pouco
levantamos a cabeça; e começamos
a ter coragem e boas esperanças.
Mas sempre surge alguma coisa que nos pára.
Aquiles junto do fosso à nossa frente
surge e com grandes gritos assusta-nos.-
São nossos esforços como os dos troianos.
Cuidamos que mudaremos com resolução
e valor a contrariedade da sorte,
e estamos cá fora para lutar.
Mas quando vier o momento decisivo,
o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;
a nossa alma fica alterada, paralisa;
e em redor das muralhas corremos
à procura de nos salvarmos pela fuga.
Porém a nossa queda é certa. Em cima,
nas muralhas, já começou o pranto.
Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.
Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.
Konstantinos Kavafis, Poemas e Prosas,
trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, p.33
Além
Só sei que a música é um 'sine qua non' na minha existência. Redefine a percepção que tenho de mim mesmo, ou melhor, aquilo que eu busco no transcendental. Por outras palavras, demonstra-me a realidade de uma presença, de um 'além' factual, que resiste à circunspecção analítica ou empírica.
George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Relógio d'Água, p.95
No aniversário de MR
O livro é o salva-vidas da solidão.
Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.
O livro que espalma a flor nas suas páginas transforma-a em borboleta.
Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, uma selecção,
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim
Vídeo surripiado ao Prosimetron, no aniversário de MR. Parabéns!
Teleologia
Atravessamos perigos sem saber.
Abismos.
Condores.
Causas sinistras.
Nos intervalos cíclicos votamos
seguir em frente.
Que fazer, não fazer
nestes compromissos
a que nos entregamos?
Perigos não previstos
surgem nos abismos
da realidade.
Sinistras aves, a verdade simples,
descem abismos
sempre quando somos.
Ruy Cinatti, archeologia ad usum animae,
Editorial Presença, colecção forma, p.34
As Fúrias
(...) O futuro
o ouvirás, quando surgir. Antes disso, esqueçamo-lo,
que o mesmo vale que começar logo a gemer.
Virá claramente com a luz que o vir nascer.
Seja bem sucedida, depois disto, a acção, (...)
Ésquilo, Agamémnon, 248-257,
in Hélade - Antologia da Cultura Grega, org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Ed., p.227
Natal
E nessa luz estás tu;
mas eu não sei onde estás,
não sei onde está a luz.
Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética,
trad. José Bento, Relógio D'Água, p.162
Perversa Idade
Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela
Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20
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