Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.56
(...)
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
Das aves passam as sombras, um momento, no chão, perto de mim. No tardo Verão que as trouxe e as demora, por que beirais não sei onde se abrigam piando como ao passar chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam! E a vida em que regressam de outras terras não é tão rápida: fiquei olhando as sombras não, mas a memória delas, das sombras não, mas de passarem aves.
Altifalam vozes
nos salões nas ruas nas praças
nos ouvidos nos túmulos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras dactilodecoradas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
Mendes de Carvalho, Camaleões e Altifalantes, Guimarães Editores - Colecção Poesia e Verdade, p.15
Dá-me a tua mão:
Vou te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Relógio d'Água, p.79]
(...) Gosto de pensar na música de uma forma abstracta, útil, com silêncio - fundamental na música! Através do Yared tive várias possibilidades para colaborar em novos projectos de filmes, mas não consegui imaginar a minha integração naquele sistema, não consegui ver-me a compor um tema e a trabalhá-lo até ao limite das suas possibilidades, para vir depois um produtor dizer-me: "Não, isto não serve, porque não vende." (...)
MATTHIEU GALEY - Há (...) um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?
MARGUERITE YOURCENAR - Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, havia muita gente para me fazer golas em bordado inglês ou para me oferecer bombons.
( De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar, conversas com Matthieu Galey, Relógio de Água, p.23-24)