Ao «Almocreve das Petas»



Ao machucho poetarrão José Daniel Rodrigues da Costa


«Não presta Coridon, não presta Elpino,
Filinto é ninharia, é lixo Alfeno;
Albano fala só do Tejo ameno,
Só tardes e manhãs descreve Alcino;

Trescala aos Seiscentistas o Paulino;
Pois Bocage! Isso é peste, isso é veneno!» -
Roncava charlatão rolho e pequeno,
Pequeno em corpo, em alma pequenino.

- «Quem acha Voss'mecê (lhe sai dum lado
Taful do sério rancho das lunetas)
Quem acha para versos estremado?» -

- Quem?! (diz o tal) não façam lá caretas:
Um que dos seus papéis anda pejado,
O aguazil Daniel, cantor de petas».

Ao mesmo, publicando o «Almocreve das Petas»
 
Das Petas o Almocreve é obra tua,
Bem se vê,  Daniel, na frase e gosto;
Adiça três de Abril ou seis de Agosto,
É de quem vende as rimas pela rua.

Cheira a teu nome o roubo da perua,
E entre o tostado arroz o gato posto;
Eis a obra melhor que tens composto,
Inda que de artifício e graça nua.

A gente por Lisboa anda pasmada,
Vendo-te farto e cheio como um ovo
Dos alvos pintos, que te deu por nada.

E frio de terror murmura o povo
Que a tua estupidez anda pejada,
E que cedo se espera um parto novo.

Ao mesmo, dando à luz o segundo volume das suas «Rimas»

Tomo segundo à luz saiu das «Rimas,
Obra mui de vagar, mui bem composta,
E sujeita depois a doutas limas.

Fala em ópios, em manas, fala em primas,
Diz coisas de que a plebe não desgosta,
Morde em peraltas, na ralé disposta
A saltos, macaquices, pantominas.

Por estas e por outras que tem feito,
Verá qualquer leitor nas obras suas
Que ele para versar nasceu com jeito.

Acham-se em tendas, acham-se em comuas;
E para lhes aumentar honra e proveito,
As vende o próprio autor por essas ruas.

[pág. 139-140]

3 comentários:

  1. Oi, passei pra conhecer o blog e desejar bom dia
    bjss

    aguardo sua visita :)

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  2. São muito interessantes, os três sonetos. Naquele tom chocarreiro que, às vezes, Bocage usava. Só não estou muito de acordo quando ele diz "Trescala aos seiscentistas o Paulino", que era Paulino Cabral, mais conhecido por Abade de Jazente, e que tem uma "voz" nada barroca,pelo contrário: bastante original.
    Ora diga-me lá se este começo de soneto é seiscentista?
    "A trinta e cinco réis custa a pescada;
    O triste bacalhau a quatro e meio;
    A dezasseis vinténs corre o centeio;
    Do verde a trinta réis custa a canada...."
    Por outro lado, este seu livro, não é muito frequente... Eu, pelo menos, não me lembro de o ver: nem em livrarias, nem em alfarrabistas.
    Os melhores cumprimentos.

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  3. Tem razão, o Bocage foi muito injusto com o Abade. Depois, ele próprio «trescala aos seiscentistas» nalguns dos seus sonetos.

    Este meu livro é muito curioso. Tem uma introdução muito interessante, do Hernani Cidade [vem referido, no início: "Texto conforme edições em vida do autor, cronologia, bibliografia e introdução por Hernâni Cidade"]. Foi uma oferta à Câmara Municipal de Lisboa e estava na respectiva biblioteca. Comprei-o, por altura do último Natal, num alfarrabista. Não foi uma «pechincha», mas pareceu-me uma edição invulgar de uma obra esquecida. Fiquei assustado com a quantidade de vocabulário cujo significado ignoro, o que, a acrescer à minha ignorância sobre matérias literárias, muito dificulta a compreensão dos poemas. Sou um leitor muito ignorante, nada erudito. Limito-me a seguir o meu instinto. A ajuda de quem sabe é preciosa. Obrigado, mais uma vez.
    Melhores cumprimentos.

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