A CASA IMPROVÁVEL
28/03/26
27/03/26
Final
Não temos ninguém, não conhecemos nada...
E chove tanto!
Bloqueada pela chuva e pela grippe, vendo passar nuvens, como elas correm! e apanhando, surpreendida, os toques da saraivada nos vidros, ou então ouvindo a queda pesada das bátegas no chão fundo da rua e nos telhados invisíveis da vizinhança, repito-me, desanimada: ninguém, nada...
O mundo coberto de água! Tragédias sem nome. Duas, três palavras me impressionaram, inadvertidas, escritas por acaso, deixadas escapar na pena de um repórter: o silêncio... os campos inundados e mortos, silenciosos.
E de repente incomoda-me a impropriedade literária, aquela espécie de masturbação mental de certas criaturas que à custa destas massas de água assassinas emitem doces miados, uma retórica lírica, dispersiva, choradinha, floreada. Que lemos por força, renegando-a.
Mas o meu «ninguém nem nada» cobre a chuva, antecede-a e sucede-lhe.
E a inutilidade, a nossa indizível inutilidade? Sensação empolgante, minaz. A nossa, a minha incapacidade de... de tudo. Eu que faço? Que é isto de escrever? Investigo-me, não, nem me investigo, desanimo. Não sei escrever, não tenho que dizer, não me vale a pena dizer nada. Linguagem, o que é linguagem? E basta-nos a linguagem? Ainda haverá quem julgue que sim... Mas eu sinto-me vazia. Inútil, vazia.
Gasta? Pior que tudo isso. Só.
Chove tanto!
Cada um de nós é um ilhéu - ilhotas flutuantes em mares profundos e larguíssimos de solidão. De abandono.
Variável solidão: ora alvoroçada e tempestuosa, ansiosa, insatisfeita, ora morta. Mas companheira eterna; poeira, névoa que de certos olhos jamais se afasta, jamais se dissipa.
Bloqueada pela grippe e pela chuva...
Dias inteiros, nem sei se curtos se longos, inteiros, sombrios, apagados, solitários, sem ouvir uma voz, enjoada do falso lirismo literário e sequiosa de não sei quê, ainda. Ainda viva; não parece impossível! Derrotada, amputada quase de sentimentos e sentidos, mas como um rabo de lagartixa, inconscientemente fremente, agitada.
Dê-se um ponto final à escrita.
Escrever para quê? Nem aceitação ter, sequer, nas baratas folhas de couve, chamadas literárias, do seu tempo! Mas não é isso que mais me aflige. Afligem-me os mundos perdidos.
Levantei-me ontem de noite para escrever esta meia dúzia de palavras.
Sofri muito tempo porque o meu mundo se reduzia ou se não dilatava. Sofria de aperto. E hoje, mais do que nunca, sofro de irremediável solidão.
Não me interessa moralizar, nem nunca me interessou; interessa-me ou apetece-me fechar um livro, vão como tudo quanto se escreve, com este desabafo: mundos perdidos, mundos perdidos, tudo que se não conheceu e nos faltou...
Mas mundo morto e conhecido, submergido, connosco afogado, unidade incómoda e dolorosa - este, da irremediável solidão.
Irene Lisboa, "O pouco e o muito - Crónica Urbana", Vol. VI, Editorial Presença, p.220/221
22/03/26
Utopia
Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia
Todas as aves partem para o sul
todas as aves: como a poesia.
Manuel Alegre, "E o Céu Tão Baixo - Uma antologia poética sobre o Alentejo",
Casa do Sul Editora, p.31; José Eusébio Alpedrinha, Alentejo (aguarela)
21/03/26
Carrilhão
Rebusco os cantos mais apagados do meu corpo
e agora em todos eles toca um sino
de que puxas a corda
que vai da base da catedral às torres
movimentando uma enorme rede
de guitas invisíveis
contigo este corpo é um carrilhão
de múltiplas escalas
sinos de bronze e outros metais de ouvir ao longe
tangendo convulsivos hinos subterrâneos de sangue
ou de suspiros candenciados
no movimento rotativo e centrípeto
do amor
p.54
09/03/26
08/03/26
E no fim são todos cinza
Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre
Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha
Sempre me recusei a arder como os outros
Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!
Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio
E no fim são todos cinza
Cláudia R. Sampaio, "Ver no Escuro"
21/02/26
Now is the winter of our discontent
Now is the winter of our discontentMade glorious summer by this sun of York;And all the clouds that lour'd upon our houseIn the deep bosom of the ocean buried.Now are our brows bound with victorious wreaths;Our bruised arms hung up for monuments;Our stern alarums changed to merry meetings,Our dreadful marches to delightful measures.Grim-visaged war hath smooth'd his wrinkled front;And now, instead of mounting barbed steedsTo fright the souls of fearful adversaries,He capers nimbly in a lady's chamberTo the lascivious pleasing of a lute.But I, that am not shaped for sportive tricks,Nor made to court an amorous looking-glass;I, that am rudely stamp'd, and want love's majestyTo strut before a wanton ambling nymph;I, that am curtail'd of this fair proportion,Cheated of feature by dissembling nature,Deformed, unfinish'd, sent before my timeInto this breathing world, scarce half made up,And that so lamely and unfashionableThat dogs bark at me as I halt by them;Why, I, in this weak piping time of peace,Have no delight to pass away the time,Unless to spy my shadow in the sunAnd descant on mine own deformity:And therefore, since I cannot prove a lover,To entertain these fair well-spoken days,I am determined to prove a villainAnd hate the idle pleasures of these days.Plots have I laid, inductions dangerous,By drunken prophecies, libels and dreams,To set my brother Clarence and the kingIn deadly hate the one against the other:And if King Edward be as true and justAs I am subtle, false and treacherous,This day should Clarence closely be mew'd up,About a prophecy, which says that 'G'Of Edward's heirs the murderer shall be.Dive, thoughts, down to my soul: hereClarence comes.
15/01/26
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BY ARTHUR O'SHAUGHNESSY We are the music-makers, And we are the dreamers of dreams, Wandering by lone sea-breakers And sitt...

