05/10/26

 




La solitude n'apprend pas à être seul, mais le seul.

E. M. Cioran, Oeuvres, Editions Gallimard, 1995, p.337 





15/06/26

A arte de viver é a arte de confiar


 

«No centro  da vida está a confiança. No centro do turbilhão atrapalhado em que a vida se torna está a falta de confiança (...) A arte de viver é a arte de confiar. »

José Tolentino Mendonça, "Um Deus Que Dança", 4ª ed., p.30   

01/04/26













 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.»

E.M.Cioran, "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504 

27/03/26

Final


 

       Não temos ninguém, não conhecemos nada...
        E chove tanto!
    Bloqueada pela chuva e pela grippe, vendo passar nuvens, como elas correm! e apanhando, surpreendida, os toques da saraivada nos vidros, ou então ouvindo a queda pesada das bátegas no chão fundo da rua e nos telhados invisíveis da vizinhança, repito-me, desanimada: ninguém, nada...
   O mundo coberto de água! Tragédias sem nome. Duas, três palavras me impressionaram, inadvertidas, escritas por acaso, deixadas escapar na pena de um repórter: o silêncio... os campos inundados e mortos, silenciosos.
     E de repente incomoda-me a impropriedade literária, aquela espécie de masturbação mental de certas criaturas que à custa destas massas de água assassinas emitem doces miados, uma retórica lírica, dispersiva, choradinha, floreada. Que lemos por força, renegando-a.
      Mas o meu «ninguém nem nada» cobre a chuva, antecede-a e sucede-lhe.
   E a inutilidade, a nossa indizível inutilidade? Sensação empolgante, minaz. A nossa, a minha incapacidade de... de tudo. Eu que faço? Que é isto de escrever? Investigo-me, não, nem me investigo, desanimo. Não sei escrever, não tenho que dizer, não me vale a pena dizer nada. Linguagem, o que é linguagem? E basta-nos a linguagem? Ainda haverá quem julgue que sim... Mas eu sinto-me vazia. Inútil, vazia.
    Gasta? Pior que tudo isso. Só.
    Chove tanto!
   Cada um de nós é um ilhéu - ilhotas flutuantes em mares profundos e larguíssimos de solidão. De abandono.
   Variável solidão: ora alvoroçada e tempestuosa, ansiosa, insatisfeita, ora morta. Mas companheira eterna; poeira, névoa que de certos olhos jamais se afasta, jamais se dissipa.
    Bloqueada pela grippe e pela chuva...
   Dias inteiros, nem sei se curtos se longos, inteiros, sombrios, apagados, solitários, sem ouvir uma voz, enjoada do falso lirismo literário e sequiosa de não sei quê, ainda. Ainda viva; não parece impossível! Derrotada, amputada quase de sentimentos e sentidos, mas como um rabo de lagartixa, inconscientemente fremente, agitada.
     Dê-se um ponto final à escrita.
    Escrever para quê? Nem aceitação ter, sequer, nas baratas folhas de couve, chamadas literárias, do seu tempo! Mas não é isso que mais me aflige. Afligem-me os mundos perdidos.
     Levantei-me ontem de noite para escrever esta meia dúzia de palavras.
    Sofri muito tempo porque o meu mundo se reduzia ou se não dilatava. Sofria de aperto. E hoje, mais do que nunca, sofro de irremediável solidão.
    Não me interessa moralizar, nem nunca me interessou; interessa-me ou apetece-me fechar um livro, vão como tudo quanto se escreve, com este desabafo: mundos perdidos, mundos perdidos, tudo que se não conheceu e nos faltou...
    Mas mundo morto e conhecido, submergido, connosco afogado, unidade incómoda e dolorosa - este, da irremediável solidão.

Irene Lisboa, "O pouco e o muito - Crónica Urbana", Vol. VI, Editorial Presença, p.220/221   

 

 

  

22/03/26

Utopia

 



Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
todas as aves: como a poesia. 

Manuel Alegre, "E o Céu Tão Baixo - Uma antologia poética sobre o Alentejo", 
Casa do Sul Editora, p.31; José Eusébio Alpedrinha, Alentejo (aguarela)
 

21/03/26

Carrilhão



Rebusco os cantos mais apagados do meu corpo
e agora em todos eles toca um sino
de que puxas a corda
que vai da base da catedral às torres
movimentando uma enorme rede
de guitas invisíveis
contigo este corpo é um carrilhão
de múltiplas escalas
sinos de bronze e outros metais de ouvir ao longe
tangendo convulsivos hinos subterrâneos de sangue
ou de suspiros candenciados
no movimento rotativo e centrípeto
do amor

p.54

  

 

         

08/03/26

E no fim são todos cinza

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza

Cláudia R. Sampaio, "Ver no Escuro" 

  

Who Will Take My Dreams Away

 


  La solitude n'apprend pas à être seul, mais le seul. E. M. Cioran , Oeuvres, Editions Gallimard, 1995, p.337