E tocará esse piano ...
12/05/12
06/05/12
Uma infância
MATTHIEU GALEY - Há (...) um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?
MARGUERITE YOURCENAR - Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, havia muita gente para me fazer golas em bordado inglês ou para me oferecer bombons.
( De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar, conversas com Matthieu Galey, Relógio de Água, p.23-24)
05/05/12
Amor
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.191
08/04/12
26/03/12
Troianos
São nossos esforços, os dos infortunados;
são nossos esforços como os dos troianos.
Conseguimos um pouco; um pouco
levantamos a cabeça; e começamos
a ter coragem e boas esperanças.
Mas sempre surge alguma coisa que nos pára.
Aquiles junto do fosso à nossa frente
surge e com grandes gritos assusta-nos.-
São nossos esforços como os dos troianos.
Cuidamos que mudaremos com resolução
e valor a contrariedade da sorte,
e estamos cá fora para lutar.
Mas quando vier o momento decisivo,
o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;
a nossa alma fica alterada, paralisa;
e em redor das muralhas corremos
à procura de nos salvarmos pela fuga.
Porém a nossa queda é certa. Em cima,
nas muralhas, já começou o pranto.
Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.
Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.
Konstantinos Kavafis, Poemas e Prosas,
trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, p.33
18/03/12
Além
Só sei que a música é um 'sine qua non' na minha existência. Redefine a percepção que tenho de mim mesmo, ou melhor, aquilo que eu busco no transcendental. Por outras palavras, demonstra-me a realidade de uma presença, de um 'além' factual, que resiste à circunspecção analítica ou empírica.
George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Relógio d'Água, p.95
07/03/12
No aniversário de MR
O livro é o salva-vidas da solidão.
Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.
O livro que espalma a flor nas suas páginas transforma-a em borboleta.
Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, uma selecção,
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim
Vídeo surripiado ao Prosimetron, no aniversário de MR. Parabéns!
03/03/12
Teleologia
Atravessamos perigos sem saber.
Abismos.
Condores.
Causas sinistras.
Nos intervalos cíclicos votamos
seguir em frente.
Que fazer, não fazer
nestes compromissos
a que nos entregamos?
Perigos não previstos
surgem nos abismos
da realidade.
Sinistras aves, a verdade simples,
descem abismos
sempre quando somos.
Ruy Cinatti, archeologia ad usum animae,
Editorial Presença, colecção forma, p.34
18/02/12
01/01/12
As Fúrias
(...) O futuro
o ouvirás, quando surgir. Antes disso, esqueçamo-lo,
que o mesmo vale que começar logo a gemer.
Virá claramente com a luz que o vir nascer.
Seja bem sucedida, depois disto, a acção, (...)
Ésquilo, Agamémnon, 248-257,
in Hélade - Antologia da Cultura Grega, org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Ed., p.227
25/12/11
Natal
E nessa luz estás tu;
mas eu não sei onde estás,
não sei onde está a luz.
Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética,
trad. José Bento, Relógio D'Água, p.162
21/12/11
Perversa Idade
Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela
Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20
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