Fecho

Vimo-la por momentos na equívoca
luz da manhã: tínhamos decidido
que não a olharíamos de novo,
nem mais ninguém: melhor assim, talvez,
nesse restrito abismo incongruente
fechar depressa todo o sofrimento.

Gastão Cruz, Escarpas, Assírio e Alvim, p.47


Antonio Vivaldi, Gelido in ogni vena,
Magdalena Kozena, Venice Baroque Orchestra, maestro: Andrea Marcon

10 comentários:

  1. Que triste..., pero a veces es mejor sí!

    Saludos,

    Sergio.

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  2. Estes violinos de Vivaldi parecem romper - quase diria rasgar - de um ponto semelhante àquele donde partem as cordas do Quarteto de Grieg, que postei, há dias, no Arpose. E se, no caso de Grieg, me tente inventar uma hipótese que se poderia cruzar com o poema de G. C., em relação a Vivaldi, conheço-lhe mal a biografia e nada me ocorre de concreto. Concreto de Grieg que o separa do espiritual (religioso?)de Vivaldi.
    Ou mera efabulação em tudo o que disse?

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  3. Lindo!?...
    Eu vim apreensiva com o título «FECHO», receosa de que o blogue ia acabar...uff...afinal não! Este é um dos blogues que eu gosto mesmo de ler.
    Um abraço,
    Manuela

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  4. Não me ocorreu que o título do post (que corresponde ao título do poema) pudesse ser interpretado no sentido de «encerramento literal». As minhas sinceras desculpas a todos!

    Para APS: A única ligação é mesmo o som (ou o tom). A canção composta por Vivaldi pertence à opera «Farnace». Aí é cantada por um tenor (Farnace, o protagonista), que chora um filho que julga morto. Li o poema de G.C. (um livro recente, com belíssimos poemas) e pareceu-me que o «ambiente» (a «cor») era o mesmo da música. (Descobri, depois, que esta canção terá sido o embrião» do «Inverno» das «Quatro Estações».) Não é, de facto, uma associação óbvia e talvez não tenha sido muito feliz...

    Retribuo o abraço, Manuela. É bom lê-la! :-)

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  5. Pelo contrário, c.a., eu acho que até fez uma ligação (intuitiva?)boa, de música e poema. E "Fecho" - o título - parece-me legítimo que o entendamos como: fecho de caixão, ou fecho de vida. No caso de Grieg, Op. 29,tem para mim, pelo tom plangente, mas muito belo, uma ligação associada à morte da mulher e da filha única, muito próximas uma da outra. Do Vivaldi é, pelas suas informações (na ópera), também a morte ("Gélido em cada veia")que é sublinhada, musicalmente.

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  6. Rectifico:
    Concerto para cordas, Op.27 (e não Op. 29), de Grieg.

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  7. Ligação intuitiva, sim (são sempre, mesmo aquelas que, depois, consigo perceber racionalmente). Estive a ouvir o quarteto de Grieg, ontem. Já conhecia e é, de facto, muito belo. Ignorava, todavia, o contexto em que foi composto e por isso só me apercebi agora que, de facto, a ligação entre as duas músicas é a dor pela morte. Obrigado, APS.

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