Jacques Brel - «L'amour est mort»
25/10/09
13/10/09
Ninguém ama de olhos fechados
Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.
Albano Martins, «Palinódias, Palimpsestos»
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.
Albano Martins, «Palinódias, Palimpsestos»
[ poema 'surripiado' no «ComLivros-Teresa»; ver ainda uma entrevista, aqui]
Responsabilidade involuntária
«Naquele tempo, tentei muitas vezes falar com amigos meus sobre o problema: imagina que alguém corre conscientemente para a sua ruína e que tu podes salvá-lo - o que farias? Imagina uma operação e um doente que tomou drogas que são incompatíveis com a anestesia, mas que se envergonha de ser um drogado, e não o quer dizer ao anestesista - ias falar com o anestesista? Imagina um processo em tribunal e um acusado que vai ser punido porque não confessa que é canhoto e por isso não pode ter cometido aquele crime, que foi cometido por um mão direita, mas que tem vergonha de ser canhoto - irias dizer ao juiz o que se está a passar? Imagina que é um homossexual, que não pode ter cometido aquele acto, mas que tem vergonha de ser homossexual. Não se trata aqui da questão de uma pessoa se envergonhar por ser canhoto ou homossexual: imagina, apenas, que o acusado tem vergonha. (...)
- Não, o teu problema não tem uma solução agradável. Naturalmente que temos de agir se a situação que descreveste é uma situação que implica uma responsabilidade involuntária ou uma responsabilidade que decidimos assumir. Ao sabermos o que é melhor para o outro, e sabendo que ele se nega a vê-lo, temos de tentar abrir-lhe os olhos. Devemos deixar-lhe sempre a última palavra, mas temos que falar com ele, com ele e não com outra pessoa nas suas costas.»
[Bernhard Schlink, «O Leitor», Ed. Asa, p.90, 91 e 94]
- Não, o teu problema não tem uma solução agradável. Naturalmente que temos de agir se a situação que descreveste é uma situação que implica uma responsabilidade involuntária ou uma responsabilidade que decidimos assumir. Ao sabermos o que é melhor para o outro, e sabendo que ele se nega a vê-lo, temos de tentar abrir-lhe os olhos. Devemos deixar-lhe sempre a última palavra, mas temos que falar com ele, com ele e não com outra pessoa nas suas costas.»
[Bernhard Schlink, «O Leitor», Ed. Asa, p.90, 91 e 94]
11/10/09
La lluvia
Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto
patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.
Jorge Luís Borges
[é magnífico! obrigado, T. ]
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto
patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.
Jorge Luís Borges
[é magnífico! obrigado, T. ]
09/10/09
De olhos abertos
«Agora que sabia fatos sobre Martim, agora que finalmente o olhava de olhos abertos, agora ela o desconhecia. E como um cego que tivesse recobrado a visão e não reconhecesse com os olhos aquilo que mãos sensíveis sabiam de cor, ela então fechou um instante as pálpebras, tentando recuperar o conhecimento íntegro anterior; abriu-as de novo e procurou fazer das duas imagens uma só. — Eu disse... — de novo ela o olhou quieta; mas porque não precisava mais dele para nada, pôde também olhá-lo com piedade e desprezo.»
[Clarice Lispector, «A maçã no escuro», Relógio D'Água, p.313]O dia era de Outono e o vento soprava em pequenas rajadas, deixando na pele ainda nua das pernas um rasto frio. Encostada ao ferro da paragem, sozinha na rua deserta, a rapariguinha fixava os olhos na linha do horizonte que marcava o início da estrada, à procura de aí ver aparecer o tejadilho verde e logo a seguir a tela branca com letras pretas, a indicar o destino, e finalmente o autocarro inteiro, rolando desengonçado, encosta a baixo, até ao sítio onde ela estava. Esperava, e enquanto esperava, anoitecia, e em breve veria acenderem-se as luzes da rua. Na estrada, o movimento não era muito. Apenas de vez em quando um carro passava, dentro seguia gente com pressa de chegar a casa, o jantar por fazer, as crianças para despachar, banho, jantar e cama. Passavam sem reparar na paragem, na rapariguinha, de pé, à espera, olhos fixos no horizonte. Passavam, apenas, rumo ao destino. E cada vez que um deles passava sem olhar, ela suspirava de alívio, confortada pela segurança de uma rua vazia. Porque os outros são uma ameça, havia-lhe ensinado a mãe. «Nunca aceites boleia», dizia ela. «Nunca! Não confies em ninguém.»
07/10/09
Chuva
lá fora chove. saio para receber os beijos em mim que me enviaste.
alagas-me, e eu passo a ter sentido.
[Teresa Sá Couto, Adágio]
alagas-me, e eu passo a ter sentido.
[Teresa Sá Couto, Adágio]
04/10/09
02/10/09
Não posso adiar o amor

[imagem da Nasa]
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
[ António Ramos Rosa ]
01/10/09
...le verbe aimer...
Un baiser, mais à tout prendre, qu'est-ce ?
Un serment fait d'un peu plus près, une promesse
Plus précise, un aveu qui veut se confirmer,
Un point rose qu'on met sur l'i du verbe aimer;
C'est un secret qui prend la bouche pour oreille,
Un instant d'infini qui fait un bruit d'abeille,
Une communion ayant un goût de fleur,
Une façon d'un peu se respirer le coeur,
Et d'un peu se goûter, au bord des lèvres, l'âme !
[Edmond Rostand, «Cyrano de Bergerac»]
Un serment fait d'un peu plus près, une promesse
Plus précise, un aveu qui veut se confirmer,
Un point rose qu'on met sur l'i du verbe aimer;
C'est un secret qui prend la bouche pour oreille,
Un instant d'infini qui fait un bruit d'abeille,
Une communion ayant un goût de fleur,
Une façon d'un peu se respirer le coeur,
Et d'un peu se goûter, au bord des lèvres, l'âme !
[Edmond Rostand, «Cyrano de Bergerac»]
Fora da medida
Naquela hora em que chorei, vexada, sozinha, sentada, a meio da tarde?
Este assunto do R. cansa-me. De todas as cores que teve, já quase não tem nenhuma.
As pessoas afastam-se de nós, nós despegamo-nos delas... e o que havia a dizer, desfez-se!
Às vezes penso, pensava: quem importa aqui?
Eu... amolecida e curiosa, desperta, depois deprimida? Talvez.
Da pessoa dele, o essencial escapou-me. É isso que me desgosta.
[Irene Lisboa, Solidão II, Ed. Presença, p.78]
É sempre assim que se ressumam as duas ou três lágrimas presas, de finalização de um sentimento... Dos rápidos sentimentos brincados, que mal têm significação, que nos atribuímos por desporto amargo.
É verdade! Eu gosto de pensar, mas à custa dos outros, à custa dos seus movimentos, do seu jogo de vida...
Mas furtam-mo, furtam-mo!Furtam-mo desta maneira: acham-me imaleável para tomar nele uma boa, uma airosa e consentânea parte.
Sou dura, abrupta. E tão dura quanto repentista, simplória, ingénua, desprevenida. Acompanho mal... atribuo fora da medida. E a uma hora do dia, calha à tarde, calha à noite, as minhas duas lágrimas de liquidação vêm-me.
Tenho um círculo de solidão! Nada o preenche. E o pouco que nele entra, sai... Sai escorraçado. Sempre indigno de lá ter entrado.
Mas afinal, o que ontem deixei por dizer?Este assunto do R. cansa-me. De todas as cores que teve, já quase não tem nenhuma.
As pessoas afastam-se de nós, nós despegamo-nos delas... e o que havia a dizer, desfez-se!
Às vezes penso, pensava: quem importa aqui?
Eu... amolecida e curiosa, desperta, depois deprimida? Talvez.
Da pessoa dele, o essencial escapou-me. É isso que me desgosta.
[Irene Lisboa, Solidão II, Ed. Presença, p.78]
29/09/09
No fim
«Estava nisto quando recebo um telegrama de Tina - sua mãe morreu. Ou antes, não recebi, eu estava no jornal, vim já tarde para casa. Foi o Miguel que o recebeu e mo meteu entalado no disco do telefone. Sua mãe morreu - Tina. (...) Estarei triste? Não sei. Ou antes. De vez em quando a súbita iluminação que estou mais só. Reinventar a vida desde onde já a reiventara. Mas provisoriamente. (...) Porque eu queria uma relação clara com o facto da morte da minha mãe. Não tenho. Uma relação que passasse através do mito convenção parece bem. Não o sei. E todavia estou triste. Sofro. Mas não sei em que sítio de mim o sofrimento é verdadeiro como num pôr do Sol o Sol, acima ou abaixo do horizonte, e entretanto cheguei à estação.» [Vergílio Ferreira, «Até ao Fim», Quetzal, p.109-110]
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Lembro-me de ti...
Lembro-me de ti... Na escuridão profunda da memória, o teu olhar ilumina a estrada percorrida na história da minha vida. E sinto, em mim, ...

-
BY ARTHUR O'SHAUGHNESSY We are the music-makers, And we are the dreamers of dreams, Wandering by lone sea-breakers And sitt...
-
Donald Wolfit, Hamlet , 1936 «Para lá do organizado, do metódico, das horas certas, dos acontecimentos de calendário, das festas com os pr...
-
Aos domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, Aos pares, Dando-nos ares De pessoas invulgares, Aos domingos i...