25/12/11

Natal

E nessa luz estás tu;
mas eu não sei onde estás,
não sei onde está a luz.

Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética
trad. José Bento, Relógio D'Água, p.162




Para APS, MR e Ana, com votos de Boas Festas.

21/12/11

Perversa Idade

Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20


20/11/11

Saltério

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Herberto Helder, O Bebedor Nocturno - poemas mudados para português
Assírio & Alvim, p.15



07/11/11

Outono

Vibram sílabas ao vento e os cabelos
brancos esvoaçam como aves fustigadas,
frágeis e furtivas
para sul.

Águas rompem de um incerto futuro
como as pedras ficam
quietas para sempre, conformadas
no infinito.

Sobe da terra um bafo morno,
materno, cada vez mais frio,
e a morte é a grande abstracção
depois da noite maior.

Alberto Soares

[poema retirado do Arpose



31/10/11

No limbo...

No limbo todos os dias são Domingo.

Ramón Gómez de La Serna, Greguerías
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim, p.57






29/10/11

Campo de paz

(...)
Quem me dera
poder renegar-me
e renascer!
Renascer de olhos enxutos
e de coração frio.
Com a mão estendida
traçar um círculo;
nele me sentar e dele ver o mundo...
Círculo
que eu própria alargasse,
ou reduzisse...
Ó meu sonhado,
desejado
e nunca alcançado
campo de paz,
de conformação,
e de senhorio! 

Irene Lisboa, "Um dia e outro dia...outono havias de vir"
vol I - poesia I, Editorial Presença, p.233



27/10/11

O sol é grande...

O sol é grande, caem com calma as aves
Em tal sazão que soía de ser fria.
Esta água que cai de alto acordar me hia
De sono não, mas de cuidados graves.

Oh cousas todas vãs, todas mudaveis,
Qual é o coração que em vós confia?
E passa um dia assi, passa outro dia,
Incertos muito mais que ó vento as naves?

Eu vira ja aqui sombras, vira flores,
Eu vira fruita ja, verde e madura;
Ensordecia o cantar dos ruiseñores!

Agora tudo é seco e de mistura:
Tambem mudando me eu, fiz outras côres.
E tudo o mais renova: isto é sem cura. 

Francisco de Sá de Miranda, Poesias de ...,
edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, INCM, p. 81


17/10/11

A certain slant of light

There's a certain slant of light,
On winter afternoons,
That oppresses, like the weight
Of cathedral tunes.

Heavenly hurt it gives us;
We can find no scar,
But internal difference
Where the meanings are.

None may teach it - any -,
'Tis the seal, despair,-
An imperial affliction
Sent us of the air.

When it comes, the landscape listens,
Shadows hold their breath;
When it goes, 't is like the distance
On the look of death.

Emily Dickinson




09/10/11

Cidadãos

Venho de um tempo mais frio. Antes da alba, 
caminhos gelados levavam sombras caladas
aos janelões sujos das fábricas. 
Hoje, aquelas sombras do passado
que ensurdeceram o mundo com os seus cantos
olham de dentro de mim. Nada percebem.
Contemplam, opulenta, uma miséria
que nem sabe que é miséria.
É o final de um sonho. É o momento
de democratizar a arte. Nenhuma árvore alta.
Espantosamente ricos e, por isso,
espantosamente pobres.  

Joan Margarit, Casa da Misericórdia,
Rita Custódio e Àlex Tarradelas (trad.), ovni, p.39


04/10/11

Star-Gazer

The very stars are justified.
The galaxy 
italicized. 

I have proofread
and proofread
the beautiful script. 

There are no
errors. 

P.K. Page, Darkmatter - Poems of Space
edited by Maurice Riordan and Jocelyn Bell Burnell, FCG, p.101


02/10/11

A geometria do caos

Ivo Markovic continuava a olhar o mar. Creio que você tem razão, senhor Faulques, disse. Tem-na nisso das regras e das riscas do tigre e das simetrias ocultas que de repente se manifestam, e uma pessoa descobre que talvez tenham estado sempre ali, dispostas a surpreender-nos. É verdade que qualquer pormenor pode mudar a vida: um caminho que não se toma, por exemplo, ou que se demora a tomar por causa de uma conversa, de um cigarro, de uma recordação. 
- Na guerra, claro, tudo isso importa. Uma mina que não se pisa por centímetros... Ou que se pisa...
(...) 
- É possível que o acaso seja equívoco, efectivamente (...). O que o fez escolher-me a mim e não a outro? (...) 
- Escolher, disse [Faulques]. 
- Sim.
- Dir-lhe-ei o que é escolher. 
Então Faulques falou durante um bocado - à sua maneira, entre pausas prolongadas e silêncios - de escolhas e de acasos. Fê-lo referindo-se ao franco atirador junto de quem passara quatro horas deitado no chão do terraço de um edifício de seis andares de onde se dominava uma ampla vista de Sarajevo. O franco atirador era um sérvio-bósnio de uns quarenta anos, magro e de olhos tranquilos, que cobrara a Faulques duzentos marcos para o deixar ficar a seu lado enquanto disparava sobre as pessoas que corriam a pé ou passavam a toda a velocidade de automóvel pela avenida Radomira Putnika, na condição de o fotografar a ele e não à rua, para evitar que localizassem a sua posição através do enquadramento. Conversaram em alemão durante a vigília, enquanto Faulques brincava com as máquinas para que o outro se habituasse a elas, e o seu interlocutor fumava um cigarro atrás do outro, inclinando-se de vez em quando para dar uma vista de olhos atenta ao longo do cano de uma espingarda SVD Dragunov, encaixada entre dois sacos de terra, onde estava apoiada uma potente mira telescópica que apontava para a rua, através de uma fresta estreita aberta na parede. Sem complexos, o sérvio tinha admitido que disparava igualmente contra homens, mulheres ou crianças e Faulques não lhe fez perguntas de índole moral, entre outras coisas porque não estava ali para isso e também porque conhecia sobejamente - não era o seu primeiro franco-atirador - os motivos simples pelos quais um homem com as doses correctas de fanatismo, rancor ou desejo de lucro mercenário podia matar indiscriminadamente. Fez perguntas técnicas, de profissional para profissional, acerca de distâncias, campo de visão, influência do vento e da temperatura na trajectória das balas. Explosivas, especificara o outro num tom de voz objectivo. Capazes de fazer explodir uma cabeça como se fosse um melão sob um martelo, ou de rebentar as entranhas com total eficácia. E como escolhes, perguntou Faulques. Refiro-me a se disparas ao acaso ou seleccionas os alvos. Então o sérvio expôs uma coisa interessante. Nisto não há acaso, explicou. Ou havia muito pouco: o necessário para que alguém decidisse passar por ali no momento certo. O resto era coisa sua. A alguns matava-os, a outros não. Tão fácil como isso. Dependia da forma de andar, de correr, de parar. Da cor do cabelo, dos gestos, da atitude. Das coisas a que os associava ao vê-los. No dia anterior tinha estado a apontar para uma rapariguinha ao longo de quinze ou vinte metros e, de repente, um gesto casual desta fê-lo pensar na sobrinha pequena - nesse ponto o franco-atirador abriu a carteira e mostrou a Faulques uma fotografia familiar. - De modo que não atirou sobre ela, escolhendo em troca uma mulher que estava perto, debruçada a uma janela, quem sabe talvez à espera de ver como matavam a rapariga que caminhava distraída e a descoberto. Por essa razão dizia que isso do acaso era relativo. Havia sempre alguma coisa que o fazia decidir-se por este ou por aquele, dificuldades operacionais à parte, claro. Passava-se o mesmo com os condutores de automóveis em andamento: às vezes deslocavam-se depressa de mais. De repente, a meio da explicação, o franco-atirador ficara tenso, as suas feições pareceram definhar e as pupilas contraíram-se enquanto se inclinava sobre a espingarda, ajustava a culatra ao ombro, colava o olho direito ao visor e colocava suavemente o dedo no gatilho. 'Jagerei', sussurara no seu mau alemão, entre dentes, como se lá em baixo o pudessem ouvir. Caça à vista. Decorreram alguns segundos enquanto a espingarda descrevia um lento movimento circular para a esquerda. Depois, com um único estampido, a culatra bateu-lhe no ombro e Faulques pôde fotografar o primeiro plano daquela cara magra e tensa, com um olho semicerrado e o outro aberto, a pele por barbear, os lábios apertados como uma linha implacável: um homem qualquer, com os seus critérios selectivos, as suas recordações, antipatias e inclinações, fotografado no momento exacto de matar. Bateu ainda uma segunda chapa quando o franco-atirador afastou a cara da culatra da espingarda, olhou para a objectiva da Leica com olhos gelados e, depois de beijar ao mesmo tempo os três dedos da mão com que tinha disparado, polegar, indicador e médio, fez com eles a saudação sérvia da vitória. Queres que te diga em quem acertei?, perguntou. Porque escolhi este alvo e não outro? Faulques, que verificava a luz com o fotómetro, não quis saber.A minha máquina não fotografou isso, disse, logo não existe. Então o outro olhou para ele em silêncio durante algum tempo, sorriu apenas, depois ficou sério e perguntou-lhe se há dois dias tinha passado junto da ponte Masarikov ao volante de um Volkswagen branco com um vidro partido e as palavras 'Press-Novinar' feitas com fita adesiva vermelha sobre o capô. Faulques ficou imóvel por instantes, acabou de guardar o fotómetro no seu saco de lona e respondeu com outra pergunta cuja resposta adivinhava.Então o sérvio deu uma palmada leve na 'Zeiss' telescópica da sua espingarda. Porque te tive, respondeu, nesta mira durante quinze segundos. Restavam-me apenas duas balas e, depois de pensar, disse para comigo: hoje não vou matar ete 'glupan'. Este tonto.

Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas, Edições ASA, p.144-149



Lembro-me de ti...

  Lembro-me de ti... Na escuridão profunda da memória, o teu olhar ilumina a estrada percorrida na história da minha vida. E sinto, em mim, ...