Natal

E nessa luz estás tu;
mas eu não sei onde estás,
não sei onde está a luz.

Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética
trad. José Bento, Relógio D'Água, p.162




Para APS, MR e Ana, com votos de Boas Festas.

Perversa Idade

Apenas isso: vinha
e não sabia
que tempestade a mais
vinha com ela

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.20


Saltério

Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Herberto Helder, O Bebedor Nocturno - poemas mudados para português
Assírio & Alvim, p.15



Outono

Vibram sílabas ao vento e os cabelos
brancos esvoaçam como aves fustigadas,
frágeis e furtivas
para sul.

Águas rompem de um incerto futuro
como as pedras ficam
quietas para sempre, conformadas
no infinito.

Sobe da terra um bafo morno,
materno, cada vez mais frio,
e a morte é a grande abstracção
depois da noite maior.

Alberto Soares

[poema retirado do Arpose



No limbo...

No limbo todos os dias são Domingo.

Ramón Gómez de La Serna, Greguerías
sel. e trad. Jorge Silva Melo, Assírio e Alvim, p.57






Campo de paz

(...)
Quem me dera
poder renegar-me
e renascer!
Renascer de olhos enxutos
e de coração frio.
Com a mão estendida
traçar um círculo;
nele me sentar e dele ver o mundo...
Círculo
que eu própria alargasse,
ou reduzisse...
Ó meu sonhado,
desejado
e nunca alcançado
campo de paz,
de conformação,
e de senhorio! 

Irene Lisboa, "Um dia e outro dia...outono havias de vir"
vol I - poesia I, Editorial Presença, p.233



O sol é grande...

O sol é grande, caem com calma as aves
Em tal sazão que soía de ser fria.
Esta água que cai de alto acordar me hia
De sono não, mas de cuidados graves.

Oh cousas todas vãs, todas mudaveis,
Qual é o coração que em vós confia?
E passa um dia assi, passa outro dia,
Incertos muito mais que ó vento as naves?

Eu vira ja aqui sombras, vira flores,
Eu vira fruita ja, verde e madura;
Ensordecia o cantar dos ruiseñores!

Agora tudo é seco e de mistura:
Tambem mudando me eu, fiz outras côres.
E tudo o mais renova: isto é sem cura. 

Francisco de Sá de Miranda, Poesias de ...,
edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, INCM, p. 81


A certain slant of light

There's a certain slant of light,
On winter afternoons,
That oppresses, like the weight
Of cathedral tunes.

Heavenly hurt it gives us;
We can find no scar,
But internal difference
Where the meanings are.

None may teach it - any -,
'Tis the seal, despair,-
An imperial affliction
Sent us of the air.

When it comes, the landscape listens,
Shadows hold their breath;
When it goes, 't is like the distance
On the look of death.

Emily Dickinson




Cidadãos

Venho de um tempo mais frio. Antes da alba, 
caminhos gelados levavam sombras caladas
aos janelões sujos das fábricas. 
Hoje, aquelas sombras do passado
que ensurdeceram o mundo com os seus cantos
olham de dentro de mim. Nada percebem.
Contemplam, opulenta, uma miséria
que nem sabe que é miséria.
É o final de um sonho. É o momento
de democratizar a arte. Nenhuma árvore alta.
Espantosamente ricos e, por isso,
espantosamente pobres.  

Joan Margarit, Casa da Misericórdia,
Rita Custódio e Àlex Tarradelas (trad.), ovni, p.39


Star-Gazer

The very stars are justified.
The galaxy 
italicized. 

I have proofread
and proofread
the beautiful script. 

There are no
errors. 

P.K. Page, Darkmatter - Poems of Space
edited by Maurice Riordan and Jocelyn Bell Burnell, FCG, p.101


A geometria do caos

Ivo Markovic continuava a olhar o mar. Creio que você tem razão, senhor Faulques, disse. Tem-na nisso das regras e das riscas do tigre e das simetrias ocultas que de repente se manifestam, e uma pessoa descobre que talvez tenham estado sempre ali, dispostas a surpreender-nos. É verdade que qualquer pormenor pode mudar a vida: um caminho que não se toma, por exemplo, ou que se demora a tomar por causa de uma conversa, de um cigarro, de uma recordação. 
- Na guerra, claro, tudo isso importa. Uma mina que não se pisa por centímetros... Ou que se pisa...
(...) 
- É possível que o acaso seja equívoco, efectivamente (...). O que o fez escolher-me a mim e não a outro? (...) 
- Escolher, disse [Faulques]. 
- Sim.
- Dir-lhe-ei o que é escolher. 
Então Faulques falou durante um bocado - à sua maneira, entre pausas prolongadas e silêncios - de escolhas e de acasos. Fê-lo referindo-se ao franco atirador junto de quem passara quatro horas deitado no chão do terraço de um edifício de seis andares de onde se dominava uma ampla vista de Sarajevo. O franco atirador era um sérvio-bósnio de uns quarenta anos, magro e de olhos tranquilos, que cobrara a Faulques duzentos marcos para o deixar ficar a seu lado enquanto disparava sobre as pessoas que corriam a pé ou passavam a toda a velocidade de automóvel pela avenida Radomira Putnika, na condição de o fotografar a ele e não à rua, para evitar que localizassem a sua posição através do enquadramento. Conversaram em alemão durante a vigília, enquanto Faulques brincava com as máquinas para que o outro se habituasse a elas, e o seu interlocutor fumava um cigarro atrás do outro, inclinando-se de vez em quando para dar uma vista de olhos atenta ao longo do cano de uma espingarda SVD Dragunov, encaixada entre dois sacos de terra, onde estava apoiada uma potente mira telescópica que apontava para a rua, através de uma fresta estreita aberta na parede. Sem complexos, o sérvio tinha admitido que disparava igualmente contra homens, mulheres ou crianças e Faulques não lhe fez perguntas de índole moral, entre outras coisas porque não estava ali para isso e também porque conhecia sobejamente - não era o seu primeiro franco-atirador - os motivos simples pelos quais um homem com as doses correctas de fanatismo, rancor ou desejo de lucro mercenário podia matar indiscriminadamente. Fez perguntas técnicas, de profissional para profissional, acerca de distâncias, campo de visão, influência do vento e da temperatura na trajectória das balas. Explosivas, especificara o outro num tom de voz objectivo. Capazes de fazer explodir uma cabeça como se fosse um melão sob um martelo, ou de rebentar as entranhas com total eficácia. E como escolhes, perguntou Faulques. Refiro-me a se disparas ao acaso ou seleccionas os alvos. Então o sérvio expôs uma coisa interessante. Nisto não há acaso, explicou. Ou havia muito pouco: o necessário para que alguém decidisse passar por ali no momento certo. O resto era coisa sua. A alguns matava-os, a outros não. Tão fácil como isso. Dependia da forma de andar, de correr, de parar. Da cor do cabelo, dos gestos, da atitude. Das coisas a que os associava ao vê-los. No dia anterior tinha estado a apontar para uma rapariguinha ao longo de quinze ou vinte metros e, de repente, um gesto casual desta fê-lo pensar na sobrinha pequena - nesse ponto o franco-atirador abriu a carteira e mostrou a Faulques uma fotografia familiar. - De modo que não atirou sobre ela, escolhendo em troca uma mulher que estava perto, debruçada a uma janela, quem sabe talvez à espera de ver como matavam a rapariga que caminhava distraída e a descoberto. Por essa razão dizia que isso do acaso era relativo. Havia sempre alguma coisa que o fazia decidir-se por este ou por aquele, dificuldades operacionais à parte, claro. Passava-se o mesmo com os condutores de automóveis em andamento: às vezes deslocavam-se depressa de mais. De repente, a meio da explicação, o franco-atirador ficara tenso, as suas feições pareceram definhar e as pupilas contraíram-se enquanto se inclinava sobre a espingarda, ajustava a culatra ao ombro, colava o olho direito ao visor e colocava suavemente o dedo no gatilho. 'Jagerei', sussurara no seu mau alemão, entre dentes, como se lá em baixo o pudessem ouvir. Caça à vista. Decorreram alguns segundos enquanto a espingarda descrevia um lento movimento circular para a esquerda. Depois, com um único estampido, a culatra bateu-lhe no ombro e Faulques pôde fotografar o primeiro plano daquela cara magra e tensa, com um olho semicerrado e o outro aberto, a pele por barbear, os lábios apertados como uma linha implacável: um homem qualquer, com os seus critérios selectivos, as suas recordações, antipatias e inclinações, fotografado no momento exacto de matar. Bateu ainda uma segunda chapa quando o franco-atirador afastou a cara da culatra da espingarda, olhou para a objectiva da Leica com olhos gelados e, depois de beijar ao mesmo tempo os três dedos da mão com que tinha disparado, polegar, indicador e médio, fez com eles a saudação sérvia da vitória. Queres que te diga em quem acertei?, perguntou. Porque escolhi este alvo e não outro? Faulques, que verificava a luz com o fotómetro, não quis saber.A minha máquina não fotografou isso, disse, logo não existe. Então o outro olhou para ele em silêncio durante algum tempo, sorriu apenas, depois ficou sério e perguntou-lhe se há dois dias tinha passado junto da ponte Masarikov ao volante de um Volkswagen branco com um vidro partido e as palavras 'Press-Novinar' feitas com fita adesiva vermelha sobre o capô. Faulques ficou imóvel por instantes, acabou de guardar o fotómetro no seu saco de lona e respondeu com outra pergunta cuja resposta adivinhava.Então o sérvio deu uma palmada leve na 'Zeiss' telescópica da sua espingarda. Porque te tive, respondeu, nesta mira durante quinze segundos. Restavam-me apenas duas balas e, depois de pensar, disse para comigo: hoje não vou matar ete 'glupan'. Este tonto.

Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas, Edições ASA, p.144-149



A inteligência




(...) a inteligência, embora divina e digna de toda a veneração, tem o costume de se acoitar nas mais repugnantes carcaças, além de que infelizmente se comporta como um canibal entre as restantes faculdades, de forma que muitas vezes, quando o Espírito se agiganta, o Coração, os Sentidos, a Magnanimidade, a Caridade, a Tolerância, a Bondade e todas as demais ficam quase sem espaço para respirar. Daí a alta conta em que se têm os poetas; daí a baixa conta em que se têm uns aos outros; daí as inimizades, as injúrias, as invejas e as querelas em que constantemente se empenham; daí a volubilidade com que as dão a conhecer; daí a avidez com que exigem simpatia pela sua causa;(...)

Virgínia Woolf, Orlando - Uma biografia , Relógio D'Agua Editores, p.149-150 

       

À prova de bala

Todos os escritores (artistas) são infelizes - leio de vez em quando, não sei onde. Mas afirmá-lo o próprio não será petulância? um modo de se dizer merecedor de compaixão? um modo de 'denegar' a sua grandeza? ou a convicção dela? Das muitas injúrias com que me vão medalhando, há duas que me intrigam - a de que sou um «vaidosão» e a de que sou um «invejoso». Porque se me revejo em comprazimento e subsequente vaidade, como posso ser invejoso? E se sou invejoso, como é que posso ser vaidosão? As duas coisas é que não. É portanto favor escolherem. (...) Retornemos à primeira frase - todos os escritores são infelizes. Porque é verdade. Mas se eu disser que sou infeliz é dizer-me com direito a queixar-me, como se não houvesse mais infelizes sobre a Terra e a supor implícita a afirmação de que sou «escritor». De modo que o melhor é não dizer nada ou sequer pensá-lo. Ou pensar que sou realmente infeliz e deixar de fora do pensamento qualquer outra conversa. Ou admitir que todo o artista é um desgraçado que se cumpre em encantamento nessa desgraça. Ou que se é feliz nos raros instantes em que se levanta por sobre a infelicidade que lhe coube. Mas não insisto porque corro o risco de me sair tudo ao contrário. E porque se não há-de ser simplesmente vaidoso do que se quer fazer, não tendo por isso inveja a ninguém que não queira fazer o mesmo, sentir-se todavia arrasado de sofrimento porque se não foi capaz, como é fácil verificá-lo ao rever-se o que se fez? Todo o artista é infeliz. Dando-lhe as voltas que se quiser, acaba talvez por estar certo

Vergílio Ferreira, Conta-corrente, nova série, vol IV, Bertrand Editora, p.179-180

Albatroz

Frente à janela o velho marinheiro
Sonha com baleias que navegam pela alma
E que o seu olho feroz não arpoou.
O seu coração é na verdade um único
Cemitério marinho. Não o do poema.
O que viaja nessa pequena vaga
Que lhe circula, lentamente, pela face.

Ómar Ortiz,
tradução de Alberto Soares, (surripiado aqui)



In memoriam

Dulce chopo,
Dulce chopo,
Te has puesto
De oro.
Ayer estabas verde,
Un verde loco
De pájaros
Gloriosos.
Hoy estás abatido
Bajo el cielo de agosto
Como yo frente al cielo
De mi espíritu rojo.
La fragancia cautiva
De tu tronco
Vendrá a mi corazón
Piadoso.
¡Rudo abuelo del prado!
Nosotros,
Nos hemos puesto
De oro
.

Frederico Garcia Lorca


Luar

Aqui, nada.
O vento levou as palavras.
Só me deixou as mãos cheias
de luar...

Paulo Assim, Celulose, Lugar da Palavra, p.63


Exercícios de reconhecimento [1]

A paixão de Floria Tosca é uma vertiginosa descida para o abismo, entre a tarde de 17 e a madrugada de 18 de Junho de 1800: uma correria entre o Teatro Argentina e a basílica de Sant'Andrea della Valle, entre o Palazzo Farnese e a villa de Mario Cavaradossi, à entrada da Via Appia; um último esforço para salvar a paixão da sua vida, no Castelo Sant'Angelo; e um salto para o vazio, do torreão de S. Mateus, longe da vista dos anjos de Bernini que adornam a ponte que conduz àquele que foi o primeiro mausoléu de Adriano. É uma tragédia romana, nas cores e na arquitectura. E uma trama de suspeitas, equívocos e traições, urdida pela imaginação de um francês e pelo génio musical de um italiano.

António Mega Ferreira, Roma - Exercícios de reconhecimento, Sextante Editora, p.131



Lá em cima

Quem não achou o Céu - aqui em baixo -
Lá em cima não o há-de encontrar -
Que os Anjos sempre alugam casa ao lado
Da que formos habitar.

Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson, Guimarães, p.187 



Como a alma se faz água

Existes? não existes? imagino
como a alma se faz água
e o coração maravilha
quando na sombra da tarde
me atravessas pela vida.

Alberto Soares, Equilíbrio, Caminho da poesia, p.81


Jorge de Sena

Jorge de Sena foi um escritor, um ensaísta e um poeta português. Grande. Morreu no estrangeiro e o regime celebrou-se com as suas ossadas. Sena era do tempo em que os intelectuais se enojavam com o ambiente irrespirável do país. Agora os intelectuais não só não se enojam como apoiam ambientes irrespiráveis. Não tenho bem a certeza é que sejam intelectuais. Duvido, porém, que, se fosse vivo, Sena apreciasse o fútil exercício. O seu justíssimo orgulho amargo não se daria bem com piedades póstumas. Eduardo Lourenço falou, certeiro, do «regresso do indesejado». Anos a fio, no antigo como no novo regime (...) trataram-no sempre como um intruso, como um estranho ao cânone oficial e ao «amiguismo» circular. Quando olho para aquilo a que apelidam de «literatura portuguesa» - uma categoria pífia onde cabe tudo, desde o romance encomendado a jornalistas da moda, a meninos e meninas dados a tremuras cerebrais lá onde nem existe uma cabeça - percebo melhor por que é que um homem da dimensão de Sena teve de ir embora daqui para ser Jorge de Sena. Porque aqui matam as pessoas em vida para, depois de mortas, as exibirem como troféus nacionais. Sena acompanhou a minha adolescência e a minha juventude. Como ensaísta, como camonista, como poeta, como romancista, como contista. Em suma, como um Homem. A melhor homenagem que se deve fazer a seres raros como Sena é lê-los e deixá-los entregues à luminosa eternidade a que pertencem.

João Gonçalves, Contra a Literatice e Afins, Guerra e Paz, p. 50-51
 

Minha mãe

Minha mãe zangava-se muito. Entrava em casa quando vinha de fora, da quinta ou da sapataria, e a casa cobria-se de culpas, toda gente era incluída.
Não sei que humor devastador a tomava. Ou sei, agora que sinto o mesmo, uma espécie de desabrido desgosto de retomar um reino que se herdou e não o queríamos. Estou a parecer-me com a minha mãe, finalmente encontramo-nos depois de tantos anos de frieza meio arrependida. Eu acusava-a de ser tão adaptada e falar por provérbios que permitem alguma segurança de opinião. Eu fazia os meus provérbios, era sempre irascível na maneira de proibir qualquer adulação. Cuidado em ter amor por mim! O amor parecia-me enfadonho quando oferecido; tinha de ser difícil e não carinhoso e leviano. "Amor de menino é como água em cestinho" - o mundo parecia-me povoado de crianças, dessas que morrem cedo e têm no peito um vazio.

Agustina Bessa-Luís, O livro de Agustina Bessa-Luís, Guerra e Paz,p. 80-81

Quadros [1]



A Vocação de S. Mateus é mais uma interpelação que uma designação imperativa. Cristo encontra nele um dos seus apóstolos; mas o interpelado, perplexo, não sabe bem se o apelo lhe é dirigido. À mesa em que se senta com outros publicanos, Levi, que será Mateus, ainda não sabe quem será, e os outros nem sequer parecem saber quem é Jesus. Caravaggio não quis mostrar a cena de um reconhecimento, mas o primeiro momento de um encontro; e isso, lido na filigrana da muito apertada ortodoxia do tempo, seria heresia, porque recusa a representação da predestinação e da graça divinas, categorias cuja pertinência iria ocupar boa parte das polémicas teológicas de meados do século XVII.
Como todos os figurantes se vestem com roupas contemporâneas, a cena perde vigor histórico para ganhar um inesperado dinamismo plástico. Em boa verdade, a única coisa que interessa a Caravaggio é que a sua pintura funcione e que o jogo dos corpos e das expressões se equilibre na complexa arquitectura das sete personagens que figuram na enorme tela. Porque, na até então curta obra de Caravaggio, essa era uma dupla 'première': por um lado, as duas telas eram de longe os maiores formatos a que se abalançara; por outro, porque o máximo que arriscara pintar, até então, eram três personagens, precisamente no célebre quadro [Os batoteiros] que abrira os olhos do cardeal Del Monte para o seu talento.
Alguns julgam ver na figura em primeiro plano (possivelmente, o apóstolo Pedro), uma forma hábil de Caravaggio fugir à representação de Jesus com vestes contemporâneas, o que lhe podia valer problemas com as autoridades eclesiásticas. É possível. Mas Pedro, que quase oculta Cristo, é uma adição tardia, sabe-se hoje. Basta olhar para o quadro como facto de pintura: a figura de Pedro cumpre a função de «compensar» a presença avassaladora de Cristo, irrompendo do lado direito da cena, precisamente de onde vem a luz. Sem essa figura circunstancial, que intercepta o braço de Jesus, deixando apenas ver o gesto adâmico pelo qual designa Mateus, a tela seria a representação de um episódio da vida de Cristo e não o momento em que Mateus é designado pelo destino. Ou seja, sem Pedro, não haveria interpelação, surpresa e dúvida, apenas imperativo e reconhecimento.

António Mega Ferreira, Roma - Exercícios de reconhecimento, Sextante Editora, p. 81-82

O primeiro

Relembro-nos ocultos sob a pérgula de glicínias.
A luz pingava suspensa em cachos de lilás.
Sentíamo-nos submersos num líquido turquesa
onde os gestos morosos subaquáticos pareciam
brancos e nus.
A aproximação dos lábios
teve a lentidão dos moluscos marinhos.
O teu braço cingiu-me a nuca,
as minhas mãos perderam-se no infinito
e o mundo parou assim...

Só há um beijo válido: o primeiro.
É puro, de mármore, eterno.
Merece uma estátua no meio do jardim.

Paulo Assim, Celulose, Lugar da palavra, p.19


Depois da noite

Olhos de maio rios muito claros
trazendo soltos seixos de um cinzento
que em breve se mistura de silêncio
brando. É tarde pra movê-los

do meu rosto ao teu que trouxe dedos
desprendê-lo da minha boca ébria
que a dizer-te se liberta a pouco e pouco
esta alegria. Fosse haver

depois da noite um dia sucessivo
não feito mais do que se permitir
ser tudo para nós e não mover-se
nunca o sentimento de deixar-te

sendo completo porque não termina
todo o amor que fica por fazer. 

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.44



Condição de mulher



Recordava como, no tempo em que era homem, exigia das mulheres que fossem obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas. «Agora vou ter que pagar na minha própria carne esses desejos», reflectiu; «porque as mulheres não são ( a ajuizar pela minha breve experiência de pertença ao sexo) obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas por natureza. Só podem alcançar essas graças, sem as quais não gozam nenhum dos prazeres da vida, mediante a mais enfadonha disciplina. Há o penteado», pensou, «que só por si me vai roubar cada manhã uma hora; há o ver-se ao espelho, mais uma hora; há o espartilho e as rendas; o banho e o pó-de -arroz; há o mudar de vestido, trocando o cetim pela renda e a renda pela seda; há o ser casta todos os dias do ano...». Aqui bateu o pé com impaciência, exibindo uma ou duas polegadas da perna. Um marinheiro empoleirado no mastro, que por acaso olhou para baixo neste instante, sobressaltou-se tão violentamente que perdeu o pé e só por um triz se salvou. «Se ver os meus tornozelos pode custar a vida a uma honesta criatura que com certeza tem mulher e filhos para sustentar, manda a mais elementar humanidade que os traga sempre cobertos», pensou Orlando. As pernas eram, porém, um dos seus maiores encantos. E pôs-se a pensar na bizarra situação a que se chegou quando a mulher é obrigada a cobrir os seus encantos para que um marinheiro se não despenhe do topo de um mastro. «Que os leve a peste!», disse, dando-se conta, pela primeira vez, daquilo que noutras circunstâncias teria aprendido desde criança, ou seja, das sacrossantas responsabilidades da condição de mulher. 

Virginia Woolf, Orlando - uma biografia, Relógio d'Água Editores, p.111-112;  imagem: Dino Valls, Catexis

O cinismo

O cinismo é a arte de ver as coisas como elas são, 
de preferência a como deveriam ser.

Oscar Wilde, Aforismos, Contexto, p.79


E tocará esse piano

Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.


Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética, trad. José Bento,
Relógio D'Água, p.31-32


Escrito no muro

Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio, Limiar, p.16-17




O gesto criador



Pranto pelo dia de hoje


Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia,
Círculo de Poesia - Moraes Editores, p.191 

O tempo

O tempo não deseja ser feliz.
Por isso nós o seguimos.

António Osório, Antologia Poética, Quetzal Editores, p.187


Afinidades electivas

No mundo ordenado de uma Europa onde a burguesia procurava o apogeu (que afinal não veio) Napoleão podia dizer, com tranquilidade e ressonância, que a Tragédia era a Política.
Os tempos passaram e essa ordem de civilização, frustrada no Velho Mundo, reagiu e alcançou apreciável plenitude nos Estados Unidos da América mas, logo em seguida, entrou em fase de decadência, ou, pelo menos, de grave conflito. A Tragédia transbordou os cenáculos da Política e derramou-se pelo asfalto da própria Linguagem dos homens. De certa forma foi um retorno às origens.
É a Linguagem que melhor se percebe, hoje, o caráter quase irremível do caos. Ao falar, ao pretender comunicar-se com o seu companheiro revolvente no drama pintado tanto por Tocqueville quanto por Orwell, a humanidade consegue apenas balbuciar quando quer falar de tudo e em especial da Morte, quando outrora achara meios de lhe emprestar um verdadeiro esplendor(...)
Somos os herdeiros de Aristóteles, o primeiro a - na Poética - reduzir a Tragédia ao efeito que produz no espetador. Mas herdeiros perdidos num deserto.
Parece definitivamente morta a era em que a civilização ocidental, ébria por um poder verbal que conseguia a suprema arte de distinguir entre o 'Ser' e o 'Não Ser', viveu a ilusão generosa do humanismo, grega, primeiro, cristã depois.
Talvez pressentindo o que viria a suceder, Shakespeare pediu às noites de verão o que o racionalismo não nos conseguia dar e entregou a Lear a chave de um 'Dizer' já desesperado e a Hamlet a incumbência de nos lembrar o 'Ser' ou 'Não Ser'. Já era, no fundo, um recurso terrível à Loucura como antítese da lucidez com que a Grécia tratou Édipo e este dos seus (nossos) problemas.
Tendo confiado a Tragédia à Política julgando que ela não mais retornaria à Linguagem, o homem ocidental entrou no deserto.
Hoje, incapaz de falar, de 'destragedisar' a Tragédia pela sua expressão, o homem ocidental parece resignado a esperar as patas dos cavalos mongóis.
Para depois - quem sabe? - recomeçar tudo de novo.

Victor Cunha Rêgo, O Trágico, in Liberdade, O Independente, p.173 a 175



Com envoi ao PROSIMETRON, neste terceiro aniversário. Que tenha uma vida longa!

A utilidade do poder - 2




Os homens que haviam sido promovidos a Governo Provisório da República, uma inacreditável colecção de mediocridades glorificadas, representavam várias tendências dentro do PRP (Partido Republicano Português), tinham opiniões diferentes sobre o que devia ser o novo regime e nem sequer especialmente se estimavam. (...) Escolhidos mais pelo que os separava do que pelo que os unia, os ministros não tardaram a entrar em violento conflito. Pior ainda, mesmo nas questões mais essenciais, agiram independentemente, sem o consentimento geral e até sem consulta prévia. No entanto, em Outubro de 1910, todos concordaram na urgente necessidade de afirmar o poder do Estado contra a Carbonária. Machado Santos queria que a Sociedade continuasse activa como supremo guia das autoridades do Estado e do Partido. Conforme ingenuamente se dava ao trabalho de explicar, os carbonários não eram republicanos vulgares, eram «alguma coisa mais»: eram os «fundadores da República» e, nessa qualidade, achavam-se no direito e no dever de velar pelos ideais revolucionários. (...)
Ao princípio os notáveis do PRP pensaram em comprar Machado Santos e o resto da Alta venda com empregos, promoções, prestígio, se não mesmo com coisas menos subtis, como pensões vitalícias e dinheiro. Um ministro especialmente optimista chegou até a oferecer a Machado Santos o governo de Moçâmedes. Porém, nem ele nem a maioria dos chefes da Carbonária mostraram particular propensão para o suicídio político, e foi preciso descobrir métodos mais eficazes para os liquidar. Por sorte, só o Governo Provisório estava em posição de recompensar os militantes da CP e, como toda a gente que de perto ou de longe participara no movimento republicano, os carbonários queriam empregos. O frenesim colectivo era tal que as comissões paroquiais de Lisboa vieram pedir humildemente nos jornais aos bandos de pretendentes que, por favor, deixassem os senhores ministros trabalhar. Camacho, por exemplo, queixava-se amargamente das alcateias de aspirantes a funcionários públicos que o perseguiam pelas ruas. Nem no café, parece, o largavam. Ora, sem posição oficial, Machado Santos apenas podia transmitir os pedidos dos carbonários aos ministros competentes e juntar a sua voz ao coro geral dos suplicantes. O GP e o Directório perceberam imediatamente a oportunidade que isto lhes abria. Embora não negassem que os «heróis de Outubro» mereciam o prémio dos seus longos «serviços» e santos «sacrifícios», terminantemente se recusaram a aceitar as recomendações da Alta Venda como as únicas ou sequer as mais seguras credencias de «heroísmo». Assim, não tardou que Lisboa sofresse de inesperada invasão de hordas de «heróis». «Comissões revolucionárias» improvisadas, cujo papel na revolução fora pouco importante, obscuro, se não imaginário, começaram aplicadamente a passar certificados de «heroísmo». A imprensa publicava carta após carta atestando as proezas, a bravura e a dedicação de ilustres desconhecidos que exigiam e frequentemente recebiam provas palpáveis da gratidão da Pátria. O número dos que se declararam presentes na Rotunda na crítica manhã de 4 de Outubro cresceu com tanta rapidez que em Novembro já se dizia que, se essas abnegadas revelações não parassem depressa, ainda se acabaria por descobrir que Lisboa inteira lá estivera, excepto talvez Machado Santos.

Vasco Pulido Valente
, O Poder e o Povo, Aletheia Editores, p. 206-208


Verdades e suspiros

Faço todos os esforços possíveis para ser seco. Quero impor silêncio ao meu coração, que crê ter muito a dizer. Temo escrever suspiros, em vez de anotar verdades.

Stendhal, Do Amor, Editorial Presença, p.47



'Til something better comes along

tu que vistes fiordes e corais,
que chegaste das palavras
subterrâneas e do que fica

por dizer, que aprendeste o silêncio
em várias línguas e atiraste um dia
a moeda ao ar para enganar

a morte, quantos verbos
queres mais para percorrer
esta narrativa inútil?

Renata Correia Botelho, Um Circo no Nevoeiro, Averno, p.53



(...)
And sometimes life is frightening
And everything comes on strong
So we're holding on for dearlife
'Til something better comes along


Exercícios

Ninguém consegue odiar sem esforço. O ódio exige mais conhecimento, mais práticas e mais rotinas que o amor.

Dulce Maria Cardoso, O chão dos pardais, Asa, p.30

Geometrias




A arte exprime, por meio dos traçados geométricos a que recorre, uma gama de relações entre os seres ideais que concebe; essas relações não são puramente descritivas nem unicamente racionais. Talvez seja mais legítimo falar de uma geometria "emblemática", onde se conjugam duas ordens de "figuras", uma delas constituída pelo código de sinais convencionados da comunicação utilitária e social, a outra pelo léxico dos símbolos, encarados aqui como sinais do que é linguisticamente incomunicável, como homologias necessariamente precárias daquilo que se atinge, não por comunicado, mas por comunhão.

Lima de Freitas, Almada e o número, Editora Soctip, p. 103

A place to be

If you can do something about a situation, there’s no reason to be upset. 
If there’s nothing you can do about the situation, there’s no reason to be upset.




Segredos de alma

A gente nipónica é inteligente, alegre, volúvel, dissipadora; profundamente sensível às belezas naturais; pouco inventiva, mas dotada de admiráveis aptidões para adoptar os progressos estranhos, de indústria, de arte, de ciência, elevando-os a um alto grau de originalidade, à força de transformá-los. E pouco mais se respiga do enigma moral deste povo, em que é justo supor-se, pelo absoluto recolhimento em que se formou e em que viveu, segredos de alma insondáveis.

Wenceslau de Moraes, Traços do Extremo Oriente, Círculo de Leitores, p. 135


Ich habe genug


Ich habe genug,
Ich habe den Heiland, das Hoffen der Frommen,
Auf meine begierigen Arme genommen;
Ich habe genug!
Ich hab ihn erblickt,
Mein Glaube hat Jesum ans Herze gedrückt;
Nun wünsch ich, noch heute mit Freuden
Von hinnen zu scheiden.


Estes dias

Compõe a lógica interior dos factos:
vais entrar na paz da simetria
no lugar
onde o azul se faz
e a noite vai nascendo devagar.

Alberto Soares, Equilíbrio, Caminho da Poesia, p.41


Viajar



Viajar é desaparecer, uma incursão solitária por uma estreita linha geográfica até ao esquecimento.
Paul Theroux, O Velho Expresso da Patagónia, Quetzal, p.23

Grata ao Arpose, onde «descobri» o pintor

Fio

Não começou ainda mas fustiga
já as veias a negra primavera:

o ar do meio de março outra vez liga
o coração à pele como na espera

do que já não virá, mesmo que diga
o contrário o vão eco de outra era

Pele, espelho do sol, dele te abriga
de noite a luz do céu que recupera

o brilho dos altos tectos diluídos
na infância e nos sonhos, os sentidos
tornando mais selvagens: o espesso

calor do ar de março engrossa o rio
interior do sangue, oculto fio
do passado com que o futuro meço

Gastão Cruz, Escarpas, Assírio & Alvim, p.38




Para MR, com amizade.

Automatismo

Não há automatismo puro, em arte. Os conflitos e as cintilações do inconsciente produzem uma objectividade que parece desdenhar de toda a objectividade mental. Mas a consciência é a região nobre do automatismo, visto que o inconsciente não tem escrita nem linguagem, excepto a histeria e o seu processo.

Agustina Bessa Luís, Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, p.22 

Os pássaros

Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo,
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia,
Moraes Editores - Círculo de Poesia, p.100

Canção

Este ritmo pousado não tolera mais
a sombra que inicias cidades escondem-se
assustadas do que pensas das minhas
insónias as palavras recuperam a força
e munem-se de garras ou soletram
de excessiva ternura o teu nome em segredo:
reunem as vogais mais doces para múltiplos
desastres
amadurecem tensas como as uvas.

São o feitio de uma escova no cabelo cercam-
-te de luz e trazem-te magnética e descalça
à minha rua por túneis de violência em direcção
ao dia.
De tudo aquilo que proibem amo-te

com o rigor incompassado de uma cheia
uma alteração sinistra de todos os sentidos
buscando a levíssima queda última
de pássaros que se guiam como cegos
de pedra em pedra aguda que não sabem
morrer em vôo como no teu sangue
límpido amanhecer de súbito e de noite.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.15


Palavras do Guru

O fogo telúrico - o karma - é destruidor ou construtivo.
O fogo celeste - o dharma - inspira.
Tudo o resto são palavras mágicas
que te podem levar ao céu ou ao inferno, ao inverno ou à primavera...
e o segredo está em olhar com soberana indiferença o bem e o mal que há em todos os fenómenos e coisas... e nos mistérios
e assim... princípio e fundamento ... ver com amor e vento a brisa
... o cair das folhas,
o intervalo... o nascer dos rebentos, a eclosão das flores...
chegado o tempo para lhes comer os frutos, ó árvore sagrada do jardim do Paraíso...

19/7/76

Ruy Cinatti, Folha volante [in Vyassa, Poema do Senhor Bhagavad-Guitá]
Assírio e Alvim, p.333

Declaração de amor

A uma de duas Senhoras desconhecidas com uma declaração de amor

Inclinação semelhante à que vos tenho jamais a houve no mundo. Ignoro absolutamente quem vós sois, e ignoro da mesma forma o vosso nome. Sem embargo desta ignorância há vinte e quatro horas que vos amo, e já podeis contar um dia em que me fizeste padecer e suspirar. Sem nunca vos ter visto o rosto, o acho belo, e acho mui agradável o vosso discurso, sem que vos ouvisse falar. As vossas acções me encantam, e finalmente imagino em vós um não sei quê que me obriga a amar não sei a quem. Parece-me algumas vezes que tendes o cabelo loiro, e outras vezes me parece que o tendes negro. Julgo que sois pequena e ao mesmo tempo me pareceis grande pessoa. Pode ser que passeis da estatura a que chamamos mediana. Tenho assentado em que os vossos olhos são verdes, azues ou pretos, e também tenho assentado em que são duas estrelas por mais escuros ou pardos que eles sejam. De toda a forma que me figuro que sois, me pareceis muito bem, e sem saber qual é a qualidade da vossa formosura estou para jurar que é a mais encantadora e feiticeira. Se vós tendes tão pouco conhecimento de mim e me amais tanto como eu vos amo, tenho muitas graças que dar ao amor e aos astros; porém, para que não vos enganeis comigo e para que vos não sobressalteis quando me virdes, tendo talvez imaginado outra coisa, vos farei pouco mais ou menos o meu retrato. O meu talhe ou a minha estatura é pouco mais que medíocre. A cabeça uns dizem que é boa, outros que é má. O certo é que é curiosa, quando não seja por outro princípio que pelo ornato de cabelos brancos como a neve, misturados com outros negros cabelos, da cor mesmo do azeviche. Os olhos são doces e inquietos; já foram garridos e maganos, porém trinta e cinco Maios que têm visto lhes têm abatido essas qualidades, as quais se eram boas vão-se cansando. Com a minha boca e com a minha língua todos têm que fazer, porém são duas coisas  de que até agora se têm queixado somente alguns indignos, viciosos e insolentes, que levantam o testemunho que a minha língua corta como uma navalha. Não temais a falsidade, executai as experiências em que levardes gosto, e vereis que a dita língua, além de ser de carne como todas as outras línguas, é delicada, branda e suave. Finalmente toda a minha cara é diferente de todas as que tendes visto até agora. Uma das vossas amigas vos dirá que eu sou um galante moço. O certo é que para amar três ou quatro formosas ao mesmo tempo, ninguém o faz mais fielmente do que eu. Se vos satisfazeis com estas qualidades, podeis contar que são vossas, pois que as ofereço sinceramente.
Entretanto cuidarei em vós sem saber em quem cuido, e se alguém me preguntar por quem suspiro, não temais que eu o declare, persuadindo-vos com prudência a que eu vos não conhecerei enquanto não souber quem vós sois.
Eu sou verdadeiramente,

Viena de Áustria, 22 de Novembro de 1736

Cavaleiro de Oliveira, Cartas, I, 46, selecção, prefácio e notas de Aquilino Ribeiro, Livraria Sá da Costa Editora, p.103-104
 
 


jacques brel - la chansons de jacky

«Vive como se...»


A vida é curta e é pecado perder o seu tempo. Sou activo, diz-se. Mas ser activo é ainda perder o seu tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estreia, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como as gotas do mercúrio. Deixai, pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. (...) Posso dizer, e direi daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então, tudo aí se inclui, a humanidade e a simplicidade. E quando posso eu ser mais verdadeiro do que quando sou eu o mundo? Sou satisfeito antes de ter desejado. A eternidade está ali e eu esperava-a. Já não é ser feliz o que eu desejo agora, mas apenas ser consciente.
Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irónico. Eles dizem: «Isso mostra que não és bom.» Não vejo a relação. Decerto oiço dizer a uma delas que é imoralista, traduzo que ela tem necessidade de atribuir-se uma moral; a outra que despreza a inteligência, compreendo que ela não pode suportar as suas dúvidas. Mas porque eu não gosto que se faça batota. A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos para a luz como para a morte. Além disso, como explicar a ligação que leva deste amor devorador à vida a este desespero oculto? Se escuto a ironia escondida no fundo das coisas, ela descobre-se lentamente. Piscando o olho pequeno e claro: «Vive como se...», diz ela. Apesar de muitas pesquisas, aqui está toda a minha ciência.

Albert Camus, O avesso e o direito, Editora Livros do Brasil, p.75-76.

Saudade

A Viagem Definitiva

...E eu irei. E ficarão os pássaros
cantando;
ficará o quintal, com sua verde árvore
e seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul, tranquilo;
e tocarão, como esta tarde tocam
os sinos no campanário.

Morrerão aqueles que me amaram
e a terra será nova cada ano;
e naquele meu canteiro florido e caiado
o meu espírito há-de pairar nostálgico...

E eu irei; estarei só, sem lugar, sem árvore
verde, sem o poço branco,
nem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

Juan Ramón Jimenez, Poemas agrestes, 1910-1911, trad. Alberto Soares

Indecentemente surripiado ao Arpose, alegando como causa exculpativa os muitos dias de saudade da poesia, que me consome...


Sinto os mortos

Sinto os mortos no frio das violetas
E nesse grande vago que há na lua.

A terra fatalmente é um fantasma,
Ela que toda a morte em si embala.

Sei que canto à beira de um silêncio,
Sei que bailo em redor da suspensão,
E possuo em redor da impossessão.

Sei que passo em redor dos mortos mudos
E sei que trago em mim a minha morte.

Mas perdi o meu ser em tantos seres,
Tantas vezes morri a minha vida,
Tantas vezes beijei os meus fantasmas,
Tantas vezes não soube dos meus actos,
Que a morte será simples como ir
Do interior da casa para a rua.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I, Círculo de Leitores, p.65



Prodígios

Podemos reagir da mesma maneira  relativamente a tudo aquilo de que entrevimos o mistério e percebemos o segredo. No entanto, graças a uma obnubilação que é da ordem do prodígio, os ginecologistas apaixonam-se pelas suas clientes, os coveiros fazem filhos, os incuráveis têm inúmeros projectos, os cépticos escrevem...

E.M. Cioran, Do inconveniente de ter nascido, Letra Livre, p.60


A noite

Anche la notte ti somiglia,
la notte remota che piange
muta, dentro il cuore profondo,
e le stelle passano stanche.
Una guancia tocca una guancia -
è un brivido freddo, qualcuno
si dibatte e t'implora, solo,
sperduto in te, nella tua febre.

La notte soffre e anela l'alba,
povero cuore che sussulti.
O viso chiuso, buia angoscia,
febbre che rattristi le stelle,
c'è chi come te attende l'alba
scrutando il tuo viso in silenzio.
Sei distesa sotto la notte
como un chiuso orizzonte morto.
Povero cuore che sussulti,
un giorno lontano eri l'alba.

[4 aprile 1950]

Cesare Pavese, Le poesie, Einaudi, p.141

Amar

Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar.

Mia Couto, Idades Cidades Divindades, Caminho, p.74


A utilidade do poder - 1

 


SCIPION
Ce n'est pas possible, Caius!

CALIGULA
Justement!

SCIPION
Je ne te comprends pas.

CALIGULA
Justement! il s'agit de ce que n'est pas possible, ou plutôt il s'agit de rendre possible ce qui ne l'est pas.

SCIPION
Mais c'est un jeu qui n'a pas de limites. C'est la récréation d'un fou.

CALIGULA
Non, Scipion, c'est la vertu d'un empereur. Je viens de comprendre enfin l'utilité du pouvoir. Il donne ses chances à l'impossible. Aujourd'hui, et pour tout le temps qui va venir, la liberté n'a plus de frontières.

CAESONIA
Je ne sais pas s'il faut s'en réjouir, Caius.

CALIGULA
Je ne le sais pas non plus. Mais je suppose qu'il faut en vivre.

Albert Camus, Caligula, Gallimard - folio, p.36

Marinheiro

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Marinheiro Real, Obra Poética I
Círculo de Leitores, p.310


O aedo

Aprendi tudo por mim. Um deus me pôs no espírito
toda a espécie de melodias. Eu saberei cantar para ti,
como se fosses um deus!....

Ilíada, XXII, 347-249 in HÉLADE Antologia da Cultura Grega
org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Editores, 10.ª ed. p.106



Le voyage, coreografia: Maurice Béjart, bailarino: Jorge Donn

Para MR, com votos de Bom Ano.

Flor, Telefone, Moça

Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuto, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga - bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores - ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
- Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
- Era uma moça que morava na rua General Polidoro, começou ela. Perto do cemitério São João Baptista. Você sabe, quem mora ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda a hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores - por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a acompanhar o préstito até ao lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar de passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direcção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade de enterros, sei lá porquê, deu para andar em São João Baptista, contemplando túmulo. Coitada!
- No interior isso não é raro...
- Mas a moça era de Botafogo.
- Ela trabalhava?
- Em casa. Não me interrompa. Você não me vai pedir a certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear - ou melhor, «deslizar» pelas ruínas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões - sim, há-de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse o morro, onde está a parte nova do cemitério, e os túmulos mais modestos. E deve ter sido lá que uma tarde, ela apanhou a flor.
- Que flor?
- Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz - não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava -, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer este ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
- Alooô...
- Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E meio sem compreender:
- O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
- Alô.
- Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
- Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo e triste, a voz respondeu:
- Quero a flor que você me furtou. Me dá a minha florzinha.
Era homem? Era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
- Vem buscar, estou te dizendo.
- Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, e você tem obrigação de devolver.
- Mas quem está falando aí?
- Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
- Diga o nome, se não eu não dou.
- Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero a minha flor, que nasceu na minha sepultura.
O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
- Alô.
- Quede a flor...
Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou ao trabalho. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
- Olhe, vire a chapa. Já está pau.
- Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
- Esta é fraquinha. Não sabe de outra?
E desligou. Mas, voltando ao quatro, já não ia só. Levava consigo a ideia daquela flor, ou antes, a ideia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como do interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você está vendo que a moça começou a ter medo.
- E eu também.
- Não seja bobo. O facto é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo quase nada. A perseguição telefónica não parava. Era sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que o seu sossego eterno - admitindo que se tratasse de pessoa morta - ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.
A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai ( a intervenção da mãe não abalara a voz). Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam «a voz».
- A voz chamou hoje? - indagava o pai, chegando da cidade.
- Ora. É infalível, suspirava a mãe, meio desalentada.
Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?
Dizem que o rapaz começou a tocar para todos os telefones da rua General Polidor, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz - não era -, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto - o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça - e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências, mas infrutíferas.
Claro que a moça deixou de atender o telefone. Não falava nem mais para as amigas. Então a «voz», que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais «você me dá minha flor», mas «quero minha flor», «quem furtou minha flor tem de restituir», etc. Diálogo com essas pessoas, a «voz» não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a «voz» não dava explicações.
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Mas, ou a polícia estava muito ocupada em prender comunistas, ou investigações telefónicas não eram a sua especialidade - o facto é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefónica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a factores de ordem técnica...
- Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar do telefone?
- Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Então é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver se telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranquilize a família, e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando. Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque - já disse que era distraída - nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...
O irmão voltou de São João Baptista dizendo que do lado por onde a moça passeara aquela tarde havia cinco sepulturas plantadas.
A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente, sobre os cincos carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado - se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.
Mas a «voz» não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume - isto não dizia a voz, mas era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs logamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contacto com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era a sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo ( como às vezes a família ainda conjecturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido de todo a noção de piedade; e se era de morto, como julgar os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza húmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e reflectir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?
- Mas, e a moça?
- Carlos, eu preveni que o meu caso da flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

Carlos Drummond de Andrade, Flor, Telefone, Moça, in Antologia do Conto Moderno, Arcádia, p.53 a 62.


Para APS, com votos de Bom Ano!