01/04/26











 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.»

E.M.Cioran, "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504 

27/03/26

Final


 

       Não temos ninguém, não conhecemos nada...
        E chove tanto!
    Bloqueada pela chuva e pela grippe, vendo passar nuvens, como elas correm! e apanhando, surpreendida, os toques da saraivada nos vidros, ou então ouvindo a queda pesada das bátegas no chão fundo da rua e nos telhados invisíveis da vizinhança, repito-me, desanimada: ninguém, nada...
   O mundo coberto de água! Tragédias sem nome. Duas, três palavras me impressionaram, inadvertidas, escritas por acaso, deixadas escapar na pena de um repórter: o silêncio... os campos inundados e mortos, silenciosos.
     E de repente incomoda-me a impropriedade literária, aquela espécie de masturbação mental de certas criaturas que à custa destas massas de água assassinas emitem doces miados, uma retórica lírica, dispersiva, choradinha, floreada. Que lemos por força, renegando-a.
      Mas o meu «ninguém nem nada» cobre a chuva, antecede-a e sucede-lhe.
   E a inutilidade, a nossa indizível inutilidade? Sensação empolgante, minaz. A nossa, a minha incapacidade de... de tudo. Eu que faço? Que é isto de escrever? Investigo-me, não, nem me investigo, desanimo. Não sei escrever, não tenho que dizer, não me vale a pena dizer nada. Linguagem, o que é linguagem? E basta-nos a linguagem? Ainda haverá quem julgue que sim... Mas eu sinto-me vazia. Inútil, vazia.
    Gasta? Pior que tudo isso. Só.
    Chove tanto!
   Cada um de nós é um ilhéu - ilhotas flutuantes em mares profundos e larguíssimos de solidão. De abandono.
   Variável solidão: ora alvoroçada e tempestuosa, ansiosa, insatisfeita, ora morta. Mas companheira eterna; poeira, névoa que de certos olhos jamais se afasta, jamais se dissipa.
    Bloqueada pela grippe e pela chuva...
   Dias inteiros, nem sei se curtos se longos, inteiros, sombrios, apagados, solitários, sem ouvir uma voz, enjoada do falso lirismo literário e sequiosa de não sei quê, ainda. Ainda viva; não parece impossível! Derrotada, amputada quase de sentimentos e sentidos, mas como um rabo de lagartixa, inconscientemente fremente, agitada.
     Dê-se um ponto final à escrita.
    Escrever para quê? Nem aceitação ter, sequer, nas baratas folhas de couve, chamadas literárias, do seu tempo! Mas não é isso que mais me aflige. Afligem-me os mundos perdidos.
     Levantei-me ontem de noite para escrever esta meia dúzia de palavras.
    Sofri muito tempo porque o meu mundo se reduzia ou se não dilatava. Sofria de aperto. E hoje, mais do que nunca, sofro de irremediável solidão.
    Não me interessa moralizar, nem nunca me interessou; interessa-me ou apetece-me fechar um livro, vão como tudo quanto se escreve, com este desabafo: mundos perdidos, mundos perdidos, tudo que se não conheceu e nos faltou...
    Mas mundo morto e conhecido, submergido, connosco afogado, unidade incómoda e dolorosa - este, da irremediável solidão.

Irene Lisboa, "O pouco e o muito - Crónica Urbana", Vol. VI, Editorial Presença, p.220/221   

 

 

  

22/03/26

Utopia

 



Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
todas as aves: como a poesia. 

Manuel Alegre, "E o Céu Tão Baixo - Uma antologia poética sobre o Alentejo", 
Casa do Sul Editora, p.31; José Eusébio Alpedrinha, Alentejo (aguarela)
 

21/03/26

Carrilhão



Rebusco os cantos mais apagados do meu corpo
e agora em todos eles toca um sino
de que puxas a corda
que vai da base da catedral às torres
movimentando uma enorme rede
de guitas invisíveis
contigo este corpo é um carrilhão
de múltiplas escalas
sinos de bronze e outros metais de ouvir ao longe
tangendo convulsivos hinos subterrâneos de sangue
ou de suspiros candenciados
no movimento rotativo e centrípeto
do amor

p.54

  

 

         

08/03/26

E no fim são todos cinza

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza

Cláudia R. Sampaio, "Ver no Escuro" 

  

Who Will Take My Dreams Away

 


21/02/26

Now is the winter of our discontent






Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lour'd upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.
Now are our brows bound with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings,
Our dreadful marches to delightful measures.
Grim-visaged war hath smooth'd his wrinkled front;
And now, instead of mounting barbed steeds
To fright the souls of fearful adversaries,
He capers nimbly in a lady's chamber
To the lascivious pleasing of a lute.
But I, that am not shaped for sportive tricks,
Nor made to court an amorous looking-glass;
I, that am rudely stamp'd, and want love's majesty
To strut before a wanton ambling nymph;
I, that am curtail'd of this fair proportion,
Cheated of feature by dissembling nature,
Deformed, unfinish'd, sent before my time
Into this breathing world, scarce half made up,
And that so lamely and unfashionable
That dogs bark at me as I halt by them;
Why, I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to spy my shadow in the sun
And descant on mine own deformity:
And therefore, since I cannot prove a lover,
To entertain these fair well-spoken days,
I am determined to prove a villain
And hate the idle pleasures of these days.
Plots have I laid, inductions dangerous,
By drunken prophecies, libels and dreams,
To set my brother Clarence and the king
In deadly hate the one against the other:
And if King Edward be as true and just
As I am subtle, false and treacherous,
This day should Clarence closely be mew'd up,
About a prophecy, which says that 'G'
Of Edward's heirs the murderer shall be.
Dive, thoughts, down to my soul: here
Clarence comes.


22/12/25


(...)

O prazer (...) é uma das ilusões que mais nos devia preocupar. Não por ser uma ilusão, coisa de que vivemos bastante, mas porque esgota tudo à sua volta, transformando em deserto árido uma existência que podia estar destinada a dar frutos. (...) As melhores coisas da nossa vida , os melhores exemplos do que pudemos fazer, não nascem do prazer mas da abnegação, do esforço e, em alguns casos literários, do sofrimento. Evidentemente que não há grande virtude no sofrimento; também ele é uma espécie de moeda de troca nesse grande sistema bancário, que é o da moral. Até porque os juros do sofrimento não são satisfatórios nem felizes: são o que são, e geralmente impedem-nos de viver as pequenas alegrias.
(...)

António Sousa Homem, "Uma Vida Fora de Moda - Crónicas de um reaccionário minhoto", Porto Editora, Julho 2025, p.242-243      

15/10/25

Vento Frio e Som

Ir para onde à tarde a lua nasce
Sobre o afastamento da terra
Deixar o ajuntamento e o som da fala
E subir à aspereza expectante da noite

Um grito cruzará o desfiladeiro,
A vertente que o traz, quebrará
Sobre quem era e fora - cascavel - 
Caindo na secura do sopé inverso

Uma intenção: reencontrar-se
Progredindo para longe de si
Afastando-se do som difuso
Da controversa substância da pele

Ficar da ver súbito o panorama
A subida da águia ao shaligrama
Aprender com os ventos chiando
Ascendentes como bravos pioneiros

Não haver então ninguém: só falésia
Rumor de regozijo inexprimível
E medo fóssil pervasivo industrioso
E deus bramando sobre a pedra

Daniel Jonas, "Idade da Pedra", Assírio e Alvim, p.12





 

  

On Stream

12/10/25

Não entres como turista no coração de uma mulher

 


Não entres como turista no coração de uma mulher

a tirar fotos
deixando latas de cerveja
procurando só catedrais imensas
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e a fazer refeições rápidas

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração de uma mulher

não bebas só um copo de mar ali

não entres no avião
apanha o comboio da meia lua
não reveles ali as tuas fotografias numa hora

se não fizer demasiado frio
entra nu

não leves guarda-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração de uma mulher

não costumam voltar a crescer.



José María Zonta, "Os Elefantes São Contagiosos", Filipe Ribeiro (trad.), Língua Morta, p.27;  
Edward Hopper, "Automat",1927

30/09/25

Criação

 





Esta dura crueza de navio
à deriva, seguindo a tempestade,
aguarda essa palavra que inicia
todo um começo sem saber o fim.

Dum silêncio nocturno vem a lume
a força, e um caroço se liberta
de mim, como de um fruto que apodrece
sem saber - por dentro.

Alberto Soares (poema respigado aqui)Alan Villiers (foto)

26/09/25

ENVOI

 



Há quantos anos convosco vivo
poetas deste mundo e todos os feitios,
como com tudo quanto seja criação humana,
desde as fantasias da carne à contemplação do espaço!
Se vos traduzo para vós em mim,
não é porque vos use para dizer o que não disse,
ou para que digais o que não haveis dito -
- mas para que sejais da minha língua,
aquela a que eu pertenço e me pertence,
e assim nela eu me sinta em todo o mundo e sempre,
por vossa companhia.
Pois para quem haveis escrito
senão para quem vos ame e queira.


Jorge de Sena, "Visão Perpétua", Morais Editores/INCM, 1982, p.108 

 


 

 

 

 






25/09/25

Sete Danças Gregas






Maurice Béjart (coreografia)
Mikis Theodorakis (música)
Giorgio Madia e Marc Hwang (bailarinos) Bejart Ballet Lausanne, Palacio de Congresos, em Madrid (1986)

 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.» E.M.Cioran , "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504