21/04/25

Que farei eu quando tudo arde?

 


Amor bravo e rezão dentro em meu peito
Têm guerra desigual. Amor, que jaz
I ja de muito tempo, manda e faz
Tudo o que quer a torto ou a dereito.

Não espera rezão; tudo é despeito,
Tudo soberba e força; faz e desfaz
Sem respeito nenhum; nunca está em paz;
Quando cuidais que sim, tudo é desfeito.

De outra parte a rezão tempos espia
Aqueles, quando traz de tarde em tarde
Força de sem rezão e milhor dia.

Não tem Amor lugar certo onde aguarde:
Antão trata treiçõis nesta agonia.
Triste, que farei eu quando tudo arde?

Francisco de Sá de Miranda, Poesias de, Edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, INCM, p.68-69  


20/04/25

Uma após uma as ondas apressadas

 



Uma após uma as ondas apressadas

Enrolam o seu verde movimento

E chiam a alva espuma

No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas

Rasgam o seu redondo movimento

E o sol aquece o espaço

Do ar entre as nuvens escassas.

Indiferente a mim e eu a ela,

A natureza deste dia calmo

Furta pouco ao meu senso

De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente

Pára um momento à porta da minha alma

E após fitar-me um pouco

Passa, a sorrir de nada.

23-11-1918

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 

 - 78.

16/04/25

Deseo

Sólo tu corazón caliente,
y nada más.

Mi paraíso, un campo
si ruiseñor
ni liras,
con un rio discreto
y una fuentecilla.

Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.

Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo de
miradas rotas.

Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.

Y tu corazón caliente,
nada más.

Federico Garcia Lorca, "Antología poética", seleção de Guillermo de Torre e Rafael Alberti, Editorial Losada, p.25 e 26


 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.» E.M.Cioran , "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504