04/08/25

Ir com a mudança

 "Tens de ir com a mudança, foi o que ele me disse. Ninguém mais ouviu, mas o John disse, de facto, para eu ir com a mudança".

Joan Didion, "O Ano do Pensamento Mágico", Infinito Particular, p.287




31/07/25

A mão invisível do vento roça por cima das ervas. [ À la manière de A. Caeiro ]


A mão 

A mão invisível do vento roça por cima das ervas.

Quando se solta, saltam nos intervalos do verde

Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,

E outras pequenas flores azúis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.

Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra

Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.

Também por mim um desejo inutilmente bafeja

As hastes das intenções, as flores do que imagino,

E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.

30-1-1921

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. 

 - 89.

19/06/25

O Sentimento Fractal

   Aqui, no centro do mundo, uma ordem parece nascer do Caos. Existem padrões na agitação rebelde das coisas, padrões que se repetem em todas as escalas...
    Aqui se descobre a lei milenar da Analogia e a Natureza parece divertir-se a demonstrar paradoxos e a reduzir a Razão ao seu lugar de ferramenta imperfeita.
    Aqui as emoções assumem as qualidades simbólicas do número e o Cálculo dá lugar à Teoria dos Conjuntos... O coração é um ábaco imenso a calcular sentimentos ou um computador analógico recheado de equações transcendentes e fórmulas resolventes de sistemas impossíveis!...
    Aqui é o riso digital da loucura ecoando no vazio de dentro, no centro do Caos, na raiz do mundo. A alma, qual espelho imenso, reflecte resignadamente as mil tonalidades da demência e murmura, como um mago a proferir encantamentos, a equação paramétrica do Homem, dependente do tempo...
   Aqui me encontro, caminhando na lisa excentricidade de uma fita de Möbius, ruminando desesperos na angústia recursiva do eco...
    Aqui, na dimensão fractal do Universo... 

José Eusébio Alpedrinha, "Teias do Silêncio", 2013

 


  

06/06/25

A medida humana

Vais
atravessando o dia
(ousando tocar as coisas) a polpa
dos dedos pesando
o que é árduo
do que é suave. Vais por necessidade
(recolectando imagens)
entregando pensamento a
coisas
elementares. Tudo flui neste lugar
(alegria
estilhaços) a singular claridade com
que medimos os factos:
aquilo em que o mundo é forte daquilo
em que o mundo
é fraco.

João Luís Barreto Guimarães, "Claridade", Quetzal, p.14

 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.» E.M.Cioran , "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504