22/03/26

Utopia

 



Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
todas as aves: como a poesia. 

Manuel Alegre, "E o Céu Tão Baixo - Uma antologia poética sobre o Alentejo", 
Casa do Sul Editora, p.31; José Eusébio Alpedrinha, Alentejo (aguarela)
 

21/03/26

Carrilhão



Rebusco os cantos mais apagados do meu corpo
e agora em todos eles toca um sino
de que puxas a corda
que vai da base da catedral às torres
movimentando uma enorme rede
de guitas invisíveis
contigo este corpo é um carrilhão
de múltiplas escalas
sinos de bronze e outros metais de ouvir ao longe
tangendo convulsivos hinos subterrâneos de sangue
ou de suspiros candenciados
no movimento rotativo e centrípeto
do amor

p.54

  

 

         

08/03/26

E no fim são todos cinza

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza

Cláudia R. Sampaio, "Ver no Escuro" 

  

Who Will Take My Dreams Away

 


 «Si l'on n'avait pas d'âme, la musique l'aurait créée.» E.M.Cioran , "Oeuvres", Editions Gallimard, 1995,p.504