13/08/10

A escrita (ainda)

A palavra é m espartilho das ideias - diz-se. É o pior (...) Agora mesmo eu estou aqui, difuso neste ambiente de fumo de cigarro, cansado, e tenho flores na secretária, cartas, retratos, o candeeiro apagado, livros, tinta, pés frios, uma carroça martela a calçada - e tudo é presente ao mesmo tempo e tenho uma ideia sumária sobre tudo, e há gente na vizinhança falando, e portas cá em casa batendo, e um garoto assobia lá fora, mais carroças, um pássaro num telhado e o céu azul, respiro e repouso. Tudo isto é exacto e simultâneo. Como descrevê-lo porém sem lhe destruir a interpenetração e a verdade de ser simultâneo? 

Vergílio Ferreira, Diário Inédito, Bertrand Editora, p.26

12/08/10

Home

A escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

(...)

05/08/10

O ódio


James Ensor, Ensor with masks

Je ne hais personne; - mais la haine noircit mon sang et brûle cette peau que les annés furent incapables de tanner. Comment dompter, sous des jugements tendres ou rigoureux, une tristesse hideuse et un cri d'écorché? (...) E. M. Cioran, Précis de Décomposition, Gallimard, p.108

01/08/10

Ressurgiremos


 
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia, Círculo de Poesia,
Moraes Editores, p.179

27/07/10

Escrito para a noite

É tão difícil viver com esta gente trazer-te
dentro de mim numa atenção discreta

esconder-te viva respirar
o ar pequeno e leve em que te moves.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.32


Nota: Há poemas que se guardam no coração e por isso estão sempre próximos. Aos que não apreciem repetições, as minhas desculpas.

26/07/10

O casamento

Quem inventou o casamento era um engenhoso torturador. É uma instituição devotada ao entorpecimento dos sentidos. O objectivo absoluto do casamento é a repetição. O melhor que pode aspirar é a criação de fortes dependências mútuas.
As discussões acabam por se tornar irrelevantes, a menos que um dos dois esteja sempre preparado para as levar por diante - isto é, a acabar o casamento. Por isso, depois do primeiro ano, deixa-se de «fazer as pazes» depois de se discutir - recai-se num furioso silêncio, que passa a silêncio normal e depois tudo recomeça novamente.
Susan Sontag, Renascer - Diários e Apontamentos 1947/1963, Quetzal, p.100-101


21/07/10

All a top physicist knows

If all a top physicist knows
About the Truth be true,
Then, for all the so-and-so's,
Futility and grime,
Our common world contains,
We have a better time
Than the Greater Nebulae do,
Or the atoms in our brains.

Marriage is rarely bliss
But, surely, it would be worse
As particles to pelt
At thousands of miles per sec
About a universe
In which a lover's kiss
Would either not be felt
Or break the loved one's neck

Though the face at which I stare
While shaving it be cruel
For, year after year, it repels
An ageing suitor, it has,
Thank God, sufficient mass
To be altogether there,
Not an indeterminate gruel
Which is partly somewhere else.

Our yes prefer to suppose
That a habitable place
Has a geocentric view,
That architects enclose
A quiet euclidean space:
Exploded myths - but who
Would feel at home a-straddle
An ever expanding saddle?

The passion of our kind
For the process of finding out
Is a fact one can hardly doubt,
But I would rejoice in it more
If I knew more clearly what
We wanted knowledge for,
Felt certain still that the mind
Is free to know or not.

It has chosen once, it seems,
And whether our concern
For magnitude's extremes
Really becomes a creature
Who comes in a a median size,
Or politicising Nature
Be altogether wise,
Is something we shall learn.


W.H.Auden, After Reading a Child's Guide to Modern Physics,
in dark matter poems of space, selecção de Maurice Riordan e Jocelyn Bell Burnell, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, p.54-55





BBC,Horizon: Is Everything We Know About the Universe Wrong?(2010)

Partes II , III , IV , V e VI .

19/07/10

Não conta nada

Last night I told a stranger all about you.
Morphine







Ontem à noite tentei contar
a um estranho tudo o que sabia
acerca de ti, e não sabia nada.
Talvez o amor seja mau psicólogo,
talvez nos embruteça a inteligência.
Quem tem uma vida pode contá-la,
mas quem ficou preso numa rede
de sentimentos adversos, quem
se debate no interior de um soneto
de onze varas, só pensa em acordar
num corpo distante, tem lá tempo
para usar a cabeça. Vai pela névoa
de coração vendado, na boca palavras
que não proferiu, leva para casa
tudo o que lhe dizem, por que será.

Nowadays


Data


À maneira de Eustache Deschamps

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia
Círculo de Poesia - Moraes Editores, p.194

Lembro-me de ti...

  Lembro-me de ti... Na escuridão profunda da memória, o teu olhar ilumina a estrada percorrida na história da minha vida. E sinto, em mim, ...