25/05/13
21/04/13
6 motivos para 1 cenário
O melro negro que, do mármore branco, vai para a chaminé.
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direcção ao dia.
Alberto Soares, aqui
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direcção ao dia.
Alberto Soares, aqui
03/03/13
O futuro
Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standartizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvários
Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.
Reinaldo Ferreira, Nunca mais é sábado - Antologia de Poesia Moçambicana,
org. e prefácio de Nelson Saúte, ed. Dom Quixote, p. 120
09/12/12
Many names
Quando considero a minha vida fico apavorado ao achá-la informe. A existência dos heróis, aquela que nos contam, é simples: vai direita ao fim como uma seta. E a maioria dos homens gosta de resumir a sua vida num preceito, por vezes uma jactância ou numa lamentação, quase sempre numa recriminação; a sua memória fabrica-lhes complacentemente uma existência explicável e clara. A minha vida tem contornos menos firmes. Como sucede frequentemente, é talvez o que não fui que a define com maior justeza: bom soldado, mas não um grande homem de guerra; amador de arte, mas não aquele artista que Nero julgou ser, ao morrer; capaz de crimes, mas não carregado de crimes.
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, trad. de Maria Lamas, Ulisseia, p.25
01/11/12
Evolução da alma
Tudo flui
Para as almas, a morte é transformarem-se em água;
para a água, a morte é transformar-se em terra;
pois a água tem origem na terra, e a alma na água.
Heraclito,
in HÉLADE Antologia da Cultura Grega,
org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Editores, 10.ª ed. p.152 e 153
17/09/12
Paciência
De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
(...)
Alberto Soares, Escrito Para a Noite
Alberto Soares, Escrito Para a Noite
12/08/12
Os deuses
Os deuses são felizes.
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal
Não há sombras ou outros que os contristem.
E, além disto, não existem…
Ricardo Reis
09/08/12
10/06/12
Mudar de vida
Solúvel e insolúvel este povo.
Na memória dos outros e na sua mesma.
Na memória dos outros e na sua mesma.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.226
Glória
Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.56
(...)
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem fôr
26/05/12
Para APS, que gosta de pássaros
... DE PASSAREM AVES
À memória de Sá de Miranda
Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.63
À memória de Sá de Miranda
Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.
Jorge de Sena, Antologia Poética, Guimarães, p.63
Altifalantes
Altifalam vozes
nos salões nas ruas nas praças
nos ouvidos nos túmulos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras dactilodecoradas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
Mendes de Carvalho, Camaleões e Altifalantes,
Guimarães Editores - Colecção Poesia e Verdade, p.15
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