In between -1

(...) I've always wondered how Buddhism perceives viruses. They're said to be in between animate and inanimate. I'd die in a flash if I were to reborn as a virus though. Ryuichi Sakamoto


A verdade está em Vargas Llosa

Ian Berry, Perú, 1989, Copyright Ian Berry/Magnum Photos

Hotel Bolivar, Lima, 17 de Julho [de 1975]

Logo à saída do aeroporto, nos muros e paredes sujas de inscrições várias, lê-se «Kissinger, go home» e outros desabafos de igual eloquência.
A realidade das coisas igual à sua própria caricatura. Táxis, a cair de podres, sem suspensão e sem buzina, são os velhos 'Plymouth', 'Chrysler', 'De Sotto', dos anos Cinquenta em Portugal.
Cá fora, nas imediações do hotel, postados a uma esquina, dois gigantescos tanques com uma malta patibular lá em cima, de metralhadora em riste. (Houve aqui recentemente uma greve da polícia que pôs durante umas horas a cidade a saque! Daí a intervenção da tropa.)
Os economistas ensinam que o dinheiro atrai o dinheiro, e a pobreza a pobreza - regra confirmada. A miséria e O Museu do Ouro. Cada Terceiro Mundo é um mundo à parte.
Pelo passeio fora, em folhetos espalhados pelo chão, um pobre diabo vende 'As obras de Kalinine', 'A instrução pública na URSS' e 'A História das Revoluções'.
O que é ser peruano?
A definição não se encontrará certamente nas estatísticas, nos compêndios de História ou nos relatórios dos sociólogos - está nos romances. A verdade está em Vargas Llosa.

Marcello Duarte Mathias, Os dias e os anos - Diário 1970-1993, No Devagar Depressa dos Tempos - Vol II, D. Quixote, p.102

Pássaros

Passam
tão próximos não sabem
destes pássaros macios
que crescem com a noite e não cessam
de cantar nem adormecem nunca.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.30



A vida a bordo

Se um dia soubesse contar das minhas viagens e das pessoas que nelas conheci, penso que teria um assunto de romance.
Primeiro, as viagens por mar. Há na vida a bordo certa intimidade, ao mesmo tempo espontânea e fictícia, que marca tanto os viajantes como a tripulação de um sinal humano e fútil. É-se nessas viagens mais sincero e mais insensato que nunca. Creio mesmo que ali, no meio das águas, cada qual se mostra o que deveras é, com as suas grandezas e as suas misérias, como se, postos de parte preconceitos e medos, todos quisessem, enfim, representar o papel que lhes ditou o grande autor.
Tais viagens são, sem dúvida, as mais interessantes e as mais inverosímeis também. O encanto que a ociosidade e o mar concedem àqueles dias no barco desfaz-se logo que se anuncia o porto de desembarque, ninguém se conhecendo mais depois, cada um ingénua e precipitadamente ocupado em reajustar a máscara do mundo.
Maria Ondina Braga, Estátua de sal, Círculo dos Leitores (ed. refundida e ampliada), p.167


Luminescência

De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo. Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar, porque em pleno dia se morre.
A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se humano.  

Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Relógio D'Água Editores, p.27

Poema conjetural


Zumban las balas en la tarde última.
Hay viento y hay ceniza en el viento,
se dispersan el día y la batalla
deforme, y la victoria es de los otros.
Vencen los bárbaros, los gauchos vencen.
Yo, que estudié las leys y los cánones,
you, Francisco Narciso de Laprida,
cuya voz declaró la independencia
de estas crueles provincias, derrotado,
de sangre y de sudor manchado el rosto,
sin esperanza ni temor, perdido,
huyo hacia el Sur por arrabales últimos.
Como aquel capitán del Purgatorio
que, huyendo a pie y ensangretando el llano,
fue cegado y tumbado por la muerte
donde un oscuro río pierde el nombre,
así habré de caer. Hoy es el término.
La noche lateral de los pantanos
me acecha y me demora. Oigo los cascos
de mi caliente murte que me busca
con jinetes, con belfos y con lanzas.

Yo que anhelé ser otro, ser um hombre
de sentencias, de libros, de dictámenes,
a cielo abierto yaceré entre ciénagas;
pero me endiosa el pecho inexplicable
um júbilo secreto. Al fin me encuentro
com mi destino sudamericano.
A esta ruinosa tarde me llevaba
el laberinto múltiple de pasos
que mis días tejieron desde un día
de la niñez. Al fin he descubierto
la recóndita clave de mis años,
la suerte de Francisco de Laprida,
la letra que faltaba, la perfecta
forma que supo Dios desde el principio.
En el espejo de esta noche alcanzo
mi insospechado rostro eterno. El círculo
se va a cerrar. Yo aguardo que así sea.

Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me buscan. Las befas de mi muerte,
los jinetes, las crines, los caballos,
se ciernen sobre mí... Ya el primer golpe,
ya el duro hierro que me raja el pecho,
el íntimo cuchillo en la garganta.

Jorge Luis Borges, Antologia poética 1923-1977, Alianza Editorial, p.49-51

L'Été au Portugal

Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que espera se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem pernas - e como cães sem faro
os pilha poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos,
se arrastam todos para o nada nulo,
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais simples pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende)

Lisboa, Agosto 1971

Jorge de Sena, Versos e alguma prosa de
prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa, co-ed. arcádia e Moraes, p.116-117


De cada vez

Contínua realidade que me sorves os dias
como hei-de responder-te se vives incluída
dos meus olhos abertos nas ávidas e frias
pedras incertas da vida

prisioneira do espelho que embacias
de cada vez que a turva suicida
torna ao morrer visíveis
as formas com que comes os meus dias

Gastão Cruz, As Leis do Caos, Assírio e Alvim, p.22


Um envoi especial para o Arpose, no seu primeiro aniversário

Estados mentais

"TEOREMA DE HEISENBERG": Fórmula da mecânica quântica segundo a qual a variância (dispersão em torno da média) da posição de um electrão, ou de qualquer outra partícula quântica, é inversamente proporcional à variância da velocidade. Corolário: se a dispersão na posição diminui, a dispersão na velocidade aumenta e ao contrário. A fórmula é rigorosa e deriva de alguns dos axiomas da teoria, sem nenhuma referência a processos de medidas. Deve portanto ser válida universalmente sem nenhuma referência a condições de laboratório. Contudo, tem sido muitas vezes mal interpretada falando de perturbações causadas pelo aparelho de medida ou mesmo pelo observador. Também tem sido mal interpretada falando da incerteza do experimentador a respeito da posição exacta e da velocidade exacta da coisa medida – daí o nome popular de "princípio da incerteza". Esta interpretação é incorrecta por duas razões. Em primeiro lugar, a física não trata de estados mentais como a incerteza. Segundo, a referida interpretação pressupõe que os electrões ou os seus análogos têm sempre uma posição e uma velocidade exactas, como se fossem massas pontuais clássicas, com a diferença que não as podemos conhecer com precisão. Mas a teoria não faz essa suposição: não postula que os electrões e análogos são pontuais e que as suas propriedades têm valores precisos. Em mecânica quântica fala-se de partículas (ou ondas) de uma maneira analógica que é, por isso, enganadora. Uma vez que essas confusões estejam clarificadas, o teorema de Heisenberg perde qualquer interesse para a epistemologia, excepto como um exemplo das distorções de factos científicos que uma filosofia falsa pode originar. Retém , porém, interesse para a ontologia, lembrando-nos que os tijolos constituintes do universo não têm forma definida e são por isso indescritíveis de uma maneira geométrica".

Mario Bunge, citado por Carlos Fiolhais, no blog De Rerum Natura



Senhor

Senhor se da tua pura justiça
Nascem os monstros que em minha roda eu vejo
É porque alguém te venceu ou desviou
Em não sei que penumbra os teus caminhos

Foram talvez os anjos revoltados.
Muito tempo antes de eu ter vindo
Já se tinha a tua obra dividido

E em vão eu busco a tua face antiga
És sempre um deus que nunca tem um rosto

Por muito que eu te chame e te persiga.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I, Círculo de Leitores, p.285



Patrick Delcroix, Cherché, trouvé, perdu, Cisne Negro Dance Company

Se isto é um homem

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vários os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

Primo Levi, Se isto é um Homem, Teorema, p.7



Continua aqui: parte II, III, IV, V, VI e VII

Madrugada

Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar connosco mortos o desejo
e o senso de existir que penentrando
além dos lodos sob as águas fundas
hão-de ser verdes como a velha esperança
nos prados da amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinadas e às montanhas
que a neve cobrirá de álgida ausência.
Levar connosco em ossos que resistam
não sabemos o quê da paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida

Madrid, 4 de Setembro 72

Jorge de Sena, Versos e alguma prosa de,
prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa,
Co-edição da arcádia e Moraes, p. 127


Oliver Stone, Platoon, 1986

Cantilena doce

Nonagésimo dia que não fosse
e como sê-lo ainda cantilena
doce nos ouvidos vento insone
ó maravilha sobreposta amena

por tanta cela amarga no regresso
de cada ramo tenro. Este arredio
pássaro preso de quantas breves sílabas
cortantes a moverem-se de exílio.

Ou na sombra repete como ver-te
concertina da noite quase cega
à minha voz e só para contigo
essa música nova que se abria

ó toda toda feita de sossego
por sobre o coração fundo e ferido.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.41


Morrer por escrito

Não sei quem foi que disse que um diário equivale a um lento suicídio. Eu não estou a escrever um diário. Estou a passar para o papel recordações de tempos idos, ocasionalmente misturadas com impressões que vão surgindo. Sinto-me, no entanto, morrer aos poucos nestas linhas. O querer dizer o que se passa em nós, analisarmo-nos por escrito, ainda que a sós connosco, é devastador. Mas talvez eu já esteja mesmo morta. Quem fala é aquela parte de fora de mim sempre atenta à de dentro e a explorá-la, um atroz, um falso eu que tive de inventar para não desistir.

Maria Ondina Braga, Estátua de Sal, ed. refundida e ampliada, Círculo dos Leitores, p.81


Arvo Part, Spiegel im Spiegel; Pierart Natacha, coreografia e dança

Pruridos de nobreza

Eu não creio que a nossa Fidalguia
Procedesse d'Adão, que era um coitado;
Um paisano, que nunca andou calçado,
Um pobre, que de peles se vestia.

Não teve armas, brasões; nem possuía
Por prova de ser nobre algum Morgado;
O fôro nunca viu; nem foi tratado,
Como agora se faz, com Senhoria.

Eva inda foi pior, pois na Escritura
Se não trata de Dom, nem de Excelência.
Nem se diz se nas danças fez figura.

E assim venho a tirar por consequência,
Que estando hoje a nobreza em tanta altura
Não traz dele, nem dela a descendência.

Paulino António Cabral, Poesias, Livraria Figueirinhas - Porto, p.100


Ah, diz-me a verdade acerca do amor


Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É aspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
(...)

W.H.Auden
, Diz-me a verdade acerca do amor - dez poemas,
trad. de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D'Água, p.9


Ansiosamente

Ansiosamente os pássaros invadem
o lado exterior da minha vida
Essa harmonia estranha

entra nos pensamentos
com que durante a noite repensei
a verdade da vida

A janela fechada
representa a manhã Dormir
a venenosa unidade impossível

Gastão Cruz, As leis do caos, Assírio & Alvim, p.30

Atrás de tempo...

Há um mês, se tanto, avisara ela o seu amigo de que, em tempo azado, deixaria Macau. E, sem se mostrar surpreendido, Lu respondera que atrás de tempo, tempo vinha, e que nas causas do coração... Desde quando é que o coração se regulava pelo calendário?
Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau, Caminho, p.211



A terra é o céu

The Fact that Earth is Heaven -
Whether Heaven is Heaven or not
If not an Affidavit
Of that specific Spot
Not only must confirm us
That it is not for us
But that it would afront us
To dwell in such a place -

O Facto de que a Terra é o Céu -
Seja o Céu o Céu ou não
Se não é um Affidavit
Desse ponto particular
Não só tem de nos confirmar
Que a nós não se destina
Mas também que nos insultaria
Morar em tal lugar -

Emily Dickinson, Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, ed. bilingue, trad. Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, p.28-29


Palavras incomuns



Os átomos não são coisas. WERNER HEISENBERG

Para o sábio, todas as «coisas» são erradicadas. BUDA

Thomas J. Macfarlane
, Einstein e Buda, Palavras Comuns, Estrela polar, p.130

Saudade

(...) E porem me parece este nome de ssuydade tam proprio, que o latym nem outro linguagem que eu saibha nom he pera tal sentido semelhante. De sse aver alguas vezes com prazer, e outras com nojo ou tristeza, esto se faz, segundo me parece, por quanto suydade propriamente he sentydo que o coraçom filha por se achar partydo da presença dalgua pessoa, ou pessoas que muyto per afeiçom ama, ou o espera cedo de sseer. E esso medês dos tempos e lugares em que per deleitaçom muyto folgou. Dygo afeiçom e deleitaçom, por que som sentymentos que ao coraçom perteencem, donde verdadeiramente nace a ssuydade mais que da rrazom nem do siso. E quando nos vem algua nembrança dalguu tempo em que muyto folgamos, nom geeral, mas que traga ryjo sentydo, e por conhecermos o estado em que somos seer tanto melhor, nom desejamos tornar a el por leixar o que possuymos, tal lembramento nos faz prazer. E a mingua do desejo per juyzo determynado da rrazom nos tira tanto aquel sentydo , que faz a ssuydade, que mais sentymos a folgança por nos nembrar o que passamos, que a pena da myngua do tempo ou pessoa. E aquesta suydade he sentyda com prazer mais que com nojo nem trizteza.

D. Duarte, Leal Conselheiro
in História e Antologia da Literatura Portuguesa, séculos XIII-XV, vol.I, FCG - Serviço de Ed. e Bolsas,p.487


in memoriam de Francisco Ribeiro

Glosa à chegada do Outono

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

1958

Jorge de Sena, Versos e alguma prosa de
prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa,
Co-edição da arcádia e Moraes, p. 56


Com envoiMR

Dentro de mim

Abarco todo o horizonte
Dentro de mim há só água,
água estagnada, dos charcos
represos da minha mágoa.

Tenho tudo nos meus olhos,
as cores todas, e ponho
um leve acento de angústia
nas margens tristes do sonho.

Dentro de mim só há sombra.
O que possa acontecer
vai rasgando espaços brancos
nas fronteiras do meu ser.

Albano Martins, Assim são as algas, Campo das Letras, p.24

O paralítico

Acontece. Será sempre assim?
O meu espírito é um rochedo,
sem dedos para me segurar, sem voz;
é o meu Deus o pulmão de aço,

que me vem amar, que bombeia
os meus dois
sacos de pó, que oscilam para dentro e para fora,
e, assim, não me permite

recair
enquanto o dia lá fora desliza como uma fita perfurada.
A noite traz violetas,
tapeçarias de olhos,

luzes,
os serenos e anónimos
conversadores: "Estás bem?"
o peito engomado, inacessível.

Como um ovo morto, estou deitado
intacto
num intacto mundo que não posso tocar;
no branco, tenso

tambor do leito onde adormeço
fotografias visitam-me...
A minha mulher, morta e estendida, com as suas peles de 1920,
a boca cheia de pérolas,

duas raparigas,
estendidas como ela, que murmuram "Somos tuas filhas".
As águas paradas
envolvem-me os lábios,

os olhos, o nariz e os ouvidos,
um transparente
celofane que não consigo romper.
Apoiada nas minhas costas nuas

sorrio como um buda, todas
as necessidades, e desejos
caindo de mim como anéis
acariciando as suas luzes.

A garra
da magnólia,
embriagada pelo seu aroma,
nada pede à vida.

Sylvia Plath, Pela Água,
tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Assírio & Alvim, p.47-48


Oferecendo de beber a Pei Ti

Provável auto retrato de Wang Wei


Vem beber um copo e descansar,
os homens mudam sempre, como as ondas do mar.
Nós dois temos envelhecido juntos,
apesar dos reveses, continuamos vivos.
O primeiro a habitar uma casa de portões escarlates
pode sorrir, ao olhar os outros de chapéu na mão.
Tu sabes, basta um pouco de chuva
para reverdecer a erva dos caminhos.
O vento da Primavera é ainda frio
mas os botões das flores quase desabrocharam.
Porquê tanta pergunta, tanta luta,
os negócios do mundo, as nuvens flutuantes?
Descansa, deixa fluir a vida,
e vem jantar comigo.

Wang Wei, Poemas de Wang Wei, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1993, p.170

Curva cega

é sempre a mesma curva

cega, neste troço de pedra lascada,

não há como escapar

às primeiras chuvas

ao piso escorregadio dos olhos,

despiste, falésia mortal,

o coração não entende

sinais vermelhos.

Renata Correia Botelho, 
in revista Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004, 
respigado aqui e com agradecimento a APS, que recomendou.


A escrita (novamente)

Escrever

Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressoante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, com isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que não se tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Irene Lisboa (João Falco), Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, Prefácio e Notas de Paula Morão, INCM, p.132-133

A escrita (ainda)

A palavra é m espartilho das ideias - diz-se. É o pior (...) Agora mesmo eu estou aqui, difuso neste ambiente de fumo de cigarro, cansado, e tenho flores na secretária, cartas, retratos, o candeeiro apagado, livros, tinta, pés frios, uma carroça martela a calçada - e tudo é presente ao mesmo tempo e tenho uma ideia sumária sobre tudo, e há gente na vizinhança falando, e portas cá em casa batendo, e um garoto assobia lá fora, mais carroças, um pássaro num telhado e o céu azul, respiro e repouso. Tudo isto é exacto e simultâneo. Como descrevê-lo porém sem lhe destruir a interpenetração e a verdade de ser simultâneo? 

Vergílio Ferreira, Diário Inédito, Bertrand Editora, p.26

Home

A escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

(...)

O ódio


James Ensor, Ensor with masks

Je ne hais personne; - mais la haine noircit mon sang et brûle cette peau que les annés furent incapables de tanner. Comment dompter, sous des jugements tendres ou rigoureux, une tristesse hideuse et un cri d'écorché? (...) E. M. Cioran, Précis de Décomposition, Gallimard, p.108

Ressurgiremos


 
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia, Círculo de Poesia,
Moraes Editores, p.179

Escrito para a noite

É tão difícil viver com esta gente trazer-te
dentro de mim numa atenção discreta

esconder-te viva respirar
o ar pequeno e leve em que te moves.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.32


Nota: Há poemas que se guardam no coração e por isso estão sempre próximos. Aos que não apreciem repetições, as minhas desculpas.

O casamento

Quem inventou o casamento era um engenhoso torturador. É uma instituição devotada ao entorpecimento dos sentidos. O objectivo absoluto do casamento é a repetição. O melhor que pode aspirar é a criação de fortes dependências mútuas.
As discussões acabam por se tornar irrelevantes, a menos que um dos dois esteja sempre preparado para as levar por diante - isto é, a acabar o casamento. Por isso, depois do primeiro ano, deixa-se de «fazer as pazes» depois de se discutir - recai-se num furioso silêncio, que passa a silêncio normal e depois tudo recomeça novamente.
Susan Sontag, Renascer - Diários e Apontamentos 1947/1963, Quetzal, p.100-101


All a top physicist knows

If all a top physicist knows
About the Truth be true,
Then, for all the so-and-so's,
Futility and grime,
Our common world contains,
We have a better time
Than the Greater Nebulae do,
Or the atoms in our brains.

Marriage is rarely bliss
But, surely, it would be worse
As particles to pelt
At thousands of miles per sec
About a universe
In which a lover's kiss
Would either not be felt
Or break the loved one's neck

Though the face at which I stare
While shaving it be cruel
For, year after year, it repels
An ageing suitor, it has,
Thank God, sufficient mass
To be altogether there,
Not an indeterminate gruel
Which is partly somewhere else.

Our yes prefer to suppose
That a habitable place
Has a geocentric view,
That architects enclose
A quiet euclidean space:
Exploded myths - but who
Would feel at home a-straddle
An ever expanding saddle?

The passion of our kind
For the process of finding out
Is a fact one can hardly doubt,
But I would rejoice in it more
If I knew more clearly what
We wanted knowledge for,
Felt certain still that the mind
Is free to know or not.

It has chosen once, it seems,
And whether our concern
For magnitude's extremes
Really becomes a creature
Who comes in a a median size,
Or politicising Nature
Be altogether wise,
Is something we shall learn.


W.H.Auden, After Reading a Child's Guide to Modern Physics,
in dark matter poems of space, selecção de Maurice Riordan e Jocelyn Bell Burnell, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, p.54-55





BBC,Horizon: Is Everything We Know About the Universe Wrong?(2010)

Partes II , III , IV , V e VI .

Não conta nada

Last night I told a stranger all about you.
Morphine







Ontem à noite tentei contar
a um estranho tudo o que sabia
acerca de ti, e não sabia nada.
Talvez o amor seja mau psicólogo,
talvez nos embruteça a inteligência.
Quem tem uma vida pode contá-la,
mas quem ficou preso numa rede
de sentimentos adversos, quem
se debate no interior de um soneto
de onze varas, só pensa em acordar
num corpo distante, tem lá tempo
para usar a cabeça. Vai pela névoa
de coração vendado, na boca palavras
que não proferiu, leva para casa
tudo o que lhe dizem, por que será.

Nowadays


Data


À maneira de Eustache Deschamps

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia
Círculo de Poesia - Moraes Editores, p.194

A memória

Não envenenem mais
o peso
das coisas sem idade.

Deixem-nas
amorosamente repousadas,
levemente esquecidas,
levemente lembradas

- um lago calmo
de águas densas e paradas.

(1965-2010)

Alberto Soares, in «Arpose»



Ingmar Bergman, Saraband, 2003

Sad Steps



Groping back to bed after a piss
I part thick curtains, and am startled by
The rapid clouds, the moon's cleanliness.

Four o'clock: wedge-shadowed gardens lie
Under a cavernous, a wind-picked sky.
There's something laughable about this,

The way the moon dashes trough clouds that blow
Loosely as cannon-smoke to stand apart
(Stone-coloured light sharpening the roofs below)

High and preposterous and separate -
Lozenge of love! Medallion of art!
O wolves of memory! Immensements! No,

One shivers slightly, looking up there.
The hardness and the brigntness and the plain
Far-reaching singleness of that wide stare

Is a reminder of the strength and pain
Of being young; that it can't come again,
But is for others undiminished somewhere.

Philip Larkin, Sad Steps, in dark matter poems of space,
selecção de Maurice Riordan e Jocelyn Bell Burnell, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, p.65



Interiores

Há no céu um recado para mim.
Vejo-o bem, estou a olhá-lo;
não o posso traduzir,
é cifrado.
Entendo-o com todo o corpo;
não sei contá-lo.

José Moreno Villa, Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
selecção e tradução  de José Bento, Assírio e Alvim, p.117


Woody Allen sobre Interiors (1978)

A filha da sereia

Esta história foi contada:
Meu pai teve amores com uma sereia e eu deles nasci. Nunca conheci mãe. Fui criada sem carinho e sem amor e tive a má ventura de nascer com os pés soldados. Meu pai desapareceu com os remorsos da minha infelicidade e eu, deixada a estranhos, conheci todos os amargores da vida.
Diziam que sabia cantar e era habilidosa, até me gabavam as mãos e os olhos, mas nunca me amaram. Consumia a minha vida a chorar, a cantar e a trabalhar. Cada vez era mais triste e à roda dos olhos creei círculos negros. As minhas mãos pareciam de cera, nunca ria nem tinha esperanças. Sonhava muito, só os sonhos me animavam. E de uma vez com tanta fé sonhei que o meu sonho se realizou. Parece impossível? Mas não é, ides ouvir.
Eu tinha adormecido a pensar que havia de ser feliz. Não era um pensamento certo, era cansaço de dor.
Fui fechando os olhos até que caí num sono profundo. Noite alta sinto uma voz... chamava por mim e era tão terna como ainda nunca ouvi outra. Desperto. Entra-me pela porta um grande resplendor de luz e no meio uma figura linda a sorrir. Era ela que me falava. Trazia na mão uma bola de oiro que disse ser o pomo da boa sorte. E que mo entregava... sobre ele havia eu de correr mundo... que nunca parasse, os bons amantes me socorreriam.
Há tanto tempo! Corro, corro, corro. Tenho os pés colados ao pomo...
A filha da sereia ia falando e o príncipe e a namorada ouviam-na condoídos.
O príncipe desejava socorrê-la, sem saber como. A noiva coma as mãos descaídas parecia ansiosa. Assim que a outra se calou baixou-se e retirou-lhe o pomo dos pés, sem custo nenhum. A rir apresentou-o na palma da mão.
A filha da sereia atónita deu um grito. Começou a andar e a correr, voltou para trás, abraçou os namorados, chorou de gozo, abençoou-os e disse que para todo o sempre os queria servir e amar.
A noiva com os olhos brilhantes continuava com o pomo na mão. O noivo tomou-lho, por ela lho oferecia, e a filha da sereia ia dizendo:
Sêde felizes, bem o mereceis... a fada mo afirmou, sois os perfeitos amantes...

Irene Lisboa, 13 Contarelos que Irene escreveu e Ilda ilustrou, p. 68 a 71.

A moralidade

A moralidade. Seria simplório pensar que o problema moral em relação aos outros consiste em agir como se deveria agir, e o problema moral consigo mesmo é conseguir sentir o que se deveria sentir? Sou moral à medida que faço o que devo, e sinto como devo sentir? De repente a questão moral me parecia não apenas esmagadora, como extremamente mesquinha. O problema moral, para que nos ajustássemos a ele, deveria ser simultaneamente menos exigente e maior. Pois como ideal é ao mesmo tempo pequeno e inatingível. Pequeno se se atinge: inatingível, porque nem ao menos se atinge. «O escândalo ainda é necessário, mas ai daquele por quem vem o escândalo» - era no Novo Testamento que estava dito? A solução tinha de ser secreta. A ética da moral é mantê-la em segredo. A liberdade é um segredo.
Embora eu saiba que, mesmo em segredo, a liberdade não resolve a culpa. Mas é preciso ser maior que a culpa. A minha ínfima parte divina é maior que a minha culpa humana. O Deus é maior que minha culpa essencial. Então prefiro o Deus, à minha culpa. Não para me desculpar e para fugir mas porque a culpa me amesquinha.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Relógio D'Água Editores - Ficções, p.69 


Só à laranja e aos gregos...

Só à laranja e aos gregos é concedida 
uma salvação circular. Esquecer
para melhor saber, odiar
para melhor amar, eis os dois princípios
da sua paciência mais avançada.
E só os gregos podem pisar essas lajes
ameaçadas. Nós, os romanos,
sua herança encalhamos nos ramos das árvores
como precisamos do telefone, dos sinais de trânsito,
do computador, do cimento armado, do plástico,
do robot
para estudarmos o clima e entrarmos na sabedoria
dos arvoredos onde estamos ocultos.
(...)

 Luís Filipe Rodrigues, dizer de véspera, Círculo da poesia - Morais Editores, p.22.

Cólera

Liberta o coração para razões que prolongam o desejo de viver. Quem não se encoleriza acaba por pedir socorro por meio de doenças, obsessões e livros de viagens.

Agustina Bessa-Luís, Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, p.53



Fecho

Vimo-la por momentos na equívoca
luz da manhã: tínhamos decidido
que não a olharíamos de novo,
nem mais ninguém: melhor assim, talvez,
nesse restrito abismo incongruente
fechar depressa todo o sofrimento.

Gastão Cruz, Escarpas, Assírio e Alvim, p.47


Antonio Vivaldi, Gelido in ogni vena,
Magdalena Kozena, Venice Baroque Orchestra, maestro: Andrea Marcon

A verdade não é coisa que se ame

Para confessar-se, a pessoa divide-se em duas, e uma delas mente. Para ser sincera, a pessoa ou acredita demasiado em si mesma, ou demasiado acredita nas suas próprias criações. No primeiro caso, é costume achar-se que mente como homem; no segundo, que mente como artista. Quando precisamente ela põe toda a sua honestidade em ser verídica. Ou, se quisermos, não há desonestidade a que ela não se arrisque por amor da verdade. A explicação deste mistério talvez esteja em que a verdade (exista ou não) não é coisa que se ame, ou não pode ser a verdade.

Jorge de Sena, in prefácio do livro «Confissões», de Jean-Jacques Rousseau, Portugália, p.20-21

Verdades práticas

No tempo em que o Diabo florescia, os pânicos, os terrores, as inquietações eram males que beneficiavam de uma protecção sobrenatural: sabia-se quem os provocava, quem presidia ao seu desabrochamento; abandonados agora a si mesmos, eles transformaram-se em "dramas interiores" ou degeneraram em "psicoses", em patologia secularizada.

E.M.Cioran, Silogismos da amargura, Letra Livre, p.21

Voar como os pássaros

outra vez peixe cozido?

não sabendo a sorte que é poder comer qualquer coisa, em vez de lhe servirem tubos de plástico num prato, acompanhados por um copo de soro

qual o sabor dos pensamentos?

das palavras?

da minha carne que apodrece?

a minha boca está seca, não percebo para que me tiram a saliva, de vez em quando alguém me molha os lábios e sinto o gosto fresco da água misturado com o sabor de pequenas fibras de algodão

(o algodão doce da feira popular)

também não percebo por que não me dão comprimidos para tomar, como é que esperam que eu melhore? um daqueles de chupar, de enrolar na lígua, daqueles que nos devolvem a súbita tranquilidade de não tarda estás fino

gostava de ser um pássaro e saborear o milho que me atirassem, enquanto andasse no terreiro com o meu andar

desajeitado, inclinado, ávido

porque ninguém tira a saliva aos pombos, nem mete tubos por eles adentro, e se fosse um pássaro podia sair daqui, por uma janela aberta, e voar até às nuvens, onde pudesse sentir o seu gosto húmido de algodão

Pandora




Dantes vivia sobre a terra a raça humana
a recato da desgraça e do penoso trabalho,
e das doenças horríveis, que trazem a morte aos homens.
Mas a mulher, com suas mãos, ergueu a grande tampa da vasilha,
e dispersou-os, preparando à humanidade funestos cuidados.
Dentro da vasilha, na morada indestrutível,
abaixo do rebordo, ficou apenas a Esperança. Essa
não se evolou. Antes, já ela tornara a colocar a tampa,
por desígnios de Deus detentor da égide, que amontoa as nuvens.
Mas tristezas aos centos erram entre os homens.
Cheia está a terra de desgraças, cheios os mares.
As doenças, umas de dia, outras de noite,
visitam à vontade os homens, trazendo aos mortais
o mal, em silêncio, pois Zeus prudente lhes retirou a voz.
E assim não há maneira de evitar os desígnios de Zeus.



Hesíodo, Trabalhos e Dias, 90-105, in Hélade, Antologia da Cultura Grega, organização e tradução de Maria Helena Rocha Pereira, Guimarães, p.109.

A passageira clandestina


Our stowaway was not long making a niche for herself abord the ship. She prooved a good worker and a thoroughly decent sort, and pretty soon her time was fully occupied with keeping the quarters aft cleaner than they had ever been before, and teaching English and playing chess. She made herself some dresses out of an old cloth form the cabin table, and good dresses they were; and before we had been very long at the sea the sight of her sitting on the after-hatch making a hair net or a hat - she was always doing something - excited no comment at all. It was a queer experience, to have a women stowaway aboard. No one in the ship had ever heard of such a thing before, though they had read about it often enough in books.
[...]I have gone to some pains to discover what were the sailors' objection to the presence of women in their ship. I found them pretty natural. There are tree chief ones, I think. First, that the presence of one unattached woman in a ship of men is highly undesirable and sure to cause trouble, in one way or another; secondly, that the nervousness and 'intuition' of women is bad for the morale of the sailing ship; and thirdly, that the more delicate nature of woman renders her unfit for the long and the hard voyages of the sailing ship, which require a strength of character as well as a physical strength that would find a good many women out. I pooh-poohed these objections, of course - for am I not the representative of my sex? - but looking back now, I admit frankly that there is more than something in them."

Alan Villiers, The Last of the Windships, The Harvill Press, London

A esfinge

E nesta altura Ester a cair em si e a considerar em como andava apartada do seu próprio peito. Com isto de tomar para mim as vidas daquelas que me cercam, vou-me mudando, que sei eu? numa espécie de esfinge. A esfinge sentada à beira do caminho, um monstro de mistério e fatalidade. (...) Esfinge que não fazia quaisquer perguntas àqueles que se lhe aproximavam e muito menos os devorava. Esfinge de si mesma, Ester. (...) Ela, o seu coração trancado a sete chaves para tudo quanto significasse ternura. Por lealdade para com Xiao? Xiao, a desleal. Xiao que sumira, sem rasto nem retractação. Por lealdade para com a amiga china ou por amor próprio? Medo. E nesse instante, pondo ali Deus por testemunha, jurou que havia de encontrar-se com Lu Si-Yuan, a professora de inglês.

Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau, Caminho, p.200




David Sylvian, Darkest Dreaming, do album Dead Bees On A Cake

How noteless Men, and Pleiads, stand...

Searching for Dark Matter in a Galaxy Cluster

How noteless Men, and Pleiads, stand,
Until a sudden sky
Reveals the fact that One is rapt -
Forever from the Eye -

Members of the Invisible,
Existing, while we stare,
In Leagueless Opportunity,
O'ertakeless, as the Air -

Why didn't we detain Them?
The Heavens with a smile,
Sweep by our disappointed Heads
Without a syllable -

Emily Dickinson,in «dark matter poems of space»
selecção de Maurice Riordan e Jocelyn Bell Burnell, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, p.214


Para APS, confiando que me ajudará a entendê-lo.

Irmão vento

Um vento novo sucedeu rompendo
por dentro a procurar-nos um do outro.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.31.



Chuva oblíqua

vejo-te como se pode ver
através desta chuva oblíqua.

oblíquo é sempre o ângulo de onde
te vejo, por mais que procure a tua
nitidez absoluta.

(...)

Vitor Oliveira Jorge, As Arquitecturas Sanzonais, ed.Campo das Letras, p. 61


Faiti !



Se Ester continuava a encontrar-se com Lu Si-Yuan, como antes, quem poderia assegurar? Talvez Zac, de zeloso. Ela própria assombrada de tão seguro sigilo. E imaginava-se dona de um mundo que nada tinha a ver com estes sitiados sítios. Um mundo que nem era o Bairro do Bazar nem o Jardim de Camões, tão-pouco a Concha-da-Tartaruga em Coloane. Um mundo que tinha, sim, a ver com a chuva, as tumultuosas torrentes do céu, o chão empoçado, ela a chapinhar de sapatos na mão. Trinidad frequentemente a interferir, a meter o bedelho, a porteira, o seu aviso: "Salir con tiempo tan feo?" Corria Ester escadaria abaixo, corria, não, voava, como se, em vez de chapéu-de-chuva, empunhasse um pára-quedas. Ocasiões em que o guarda chuva se virava na rua, tal as velas de um barco nas voltas do vento. Colhia então calmamente o velame, prosseguia à deriva, cabelos desatados, o rosto de quem se desbulhasse. Momentos mágicos, esses, não fosse aquele medo. Que o medo a gente acaba também por o adoptar. Gerado nas nossas entranhas, o medo é um fruto espontâneo e espúrio. Sem medo, seríamos certamente, se não insensíveis, pelo menos estéreis.
Ocasiões em que o carro do tenente passava por ela, a salpicava de lama, o rum-um-um do motor do dois cavalos mais furioso que o trovão. E Xiao Hé Huá, por onde andaria a essa hora o Botão de Lótus Amarelo? Saudades da chinesa, Ester. Saudades de quando atravessavam, juntas, o lago da cerca do colégio, a água pelos tornozelos, vermes como pequenas cobras ocultos no lodaçal: Cuidado, se esses bichos mordem o calcanhar, fica uma chaga crónica. Já na rua principal chamava um triciclo: 'Faiti !' Escuro dentro do triciclo, escuro e quente, um cheiro a bafio, o acoite da bátega na capota. E agora como uma fantástica viagem. Através de Macau. Para além de Macau. Uma vagabundagem ao longo dos seus sentidos, ao longo de si. A sua pena de não ter a quem contar tal aventura. Que o amor, as ocorrências do amor marcam-nas a confusão. E todavia, o caminho para lá, que claro! Igual à carta fechada na gaveta da mesa dos livros, o amor, os seus enigmáticos sinais, os seus símbolos selados, uma selva. Já o homem, ele que guardava consigo o encanto da clandestinidade, completo, o homem. Ninguém decerto compreendendo, caso ela contasse. Quem sabe, Xiao? Algum dia. Assim que tornassem a dormir as noites todas, a levantar-se uma aquando à outra, a cruzarem-se manhã cedo no corredor: 'Mor... o ... ning! Tsó shan!' E, ao dejejum, diante da tigela fumegante do 'chouk' com 'tau-fu': Tome do meu chá! 'It's refreshing!' Ou em noites de Inverno, a luz apagada, os seus murmúrios por trás da cana do compartimento. Então, sim, então havia de contar-lhe tudo (tudo?), mansamente e humilde. Contar para não vir a esquecer. Que a carta era sua, podia vê-la sempre que lhe apetecesse, tactear a finura do papel de arroz, o relevo dos traços a tinta-da-china, aspirar-lhe o aroma. Ele, contudo, o autor da carta... Tão raro, ele, tão remoto. Necessário fixá-lo para que não desbotasse com o tempo, não delisse como as imagens nos retratos antigos. Mas fixá-lo em quê? Em quem? Em Xiao Hé Huá, naturalmente. Xiao que, semelhante a ele, tinha olhos estreitos e faces esmaecidas. Semelhante a ele, descera ela das montanhas do Norte, Xiao, debruçara-se sobre os precipícios, ensanguentara os pés nas fráguas. Retê-lo em Xiao. Restituí-lo a Xiao?

Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau, Caminho,  p.168-169