A alma dos ricos

Concurso hípico, Lisboa, 1928 - Mário Novais, Biblioteca de Arte-F.C.G.


«Não é raro que as raparigas muito ricas escolham maridos pobres e que as limitem nas ambições. Chama-se a isso voltar ao pão seco, que pode constituir um desejo inspirador nas mulheres.
 O pai das duas meninas (havia também um rapaz, Eduardo) pertencia ainda à classe dos industriais de pano branco que se estendiam pelas margens do rio Ave com uma regular variedade de apresentação. Uns eram ricos com obstinação da consideração social, obtinham um título papalino e faziam-se solitários na sua terra onde o passado modesto lhes pesava como chumbo. Outros, como no caso de Amílcar da Barca, nunca rejeitavam nem os gostos nem as fraquezas, fiéis aos pratos tradicionais e ao pão de milho com chouriço. Educavam tão bem os filhos que se lhes tornavam estranhos.
Contudo o Amílcar da Barca teve o critério romanesco de se casar com uma Silva de Lanhoso, esta de casa apalaçada cujos telhados estavam uma ruína. A ruína dos telhados leva às vezes a alianças inesperadas.
As Silva Lanhoso eram de facto boas mulheres, mas completamente intragáveis quando se tratava de etiqueta. Tinham sempre um moço ao lado que levava o banquinho para os pés, na missa, e a escalfeta para o teatro. Chamavam-lhe o mandarete. Ninguém falava à mesa antes de a Silva se assoar estrondosamente depois de comer a sopa. Não era uma déspota; era um relógio de carrilhão.»

Agustina Bessa-Luís, «O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos», Guimarães, p. 11

8 comentários:

  1. Curiosíssimo trecho d'obra.
    Trouxe-me à memória umas quantas estoriestas muito engraçadas que a minha Mãe, que vem de tempos bem remotos, nos contava de uma certa burguesia Portuense (e digo Portuense como poderia dizer Lisboeta ou d'outra parte qualquer do país, não fôsse, a minha Mãe, orgulhosa filha da Invicta) e que julgo remontarem à década de 40.
    A propósito, ou nem tanto, deste artigo, deixo-lhe aqui uma outra história curiosa — em Inglês, sorry! — que descobri, recentemente, num outro blogue, intitulada "5 Boys":

    http://moreintelligentlife.com/content/ian-jack/5-boys

    Um Abraço Deste Lado Do Mundo,
    NBJ

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  2. Li essa obra de Agustina e gostei bastante.
    Ai a etiqueta das "Silva Lanhoso" que deixavam muito a desejar...
    Li este livro há três ou quatro anos e achei graça à alma dos "ricos" da sociedade nortenha. :)

    Um pouco de etiqueta imaginária: boa tarde numa tranquila esplanada de uma pousada, com sol, boa companhia, ela com um chapéu magnífico e luvas brancas, porque ainda esta frio, e ele de camisa de seda e chapéu, se fosse de acordo com a Primavera teria de ser de palha mas está frio...
    :)

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  3. Num Verão em que o tempo ainda não era escasso, li este, antecedido de "A Jóia de Família" e "Os Espaços em Branco". Uma magnífica trilogia. Depois parei de ler Agustina durante algum tempo. Agustina exige pausas.

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  4. Obrigado, meu caro NBJ, o «post» que refere merece, de facto, ser lido. Gosto muito de fotografia, por ser a única arte que efectivamente permite «congelar» um momento no tempo, com resultados fascinantes, como aquele que o «post» por si citado relata. Cada fotografia tem, atrás de si, uma história, nem sempre conhecida, como acontece com esta, que fui buscar aos arquivos fotográficos da Biblioteca da Fundação Gulbenkian.
    Agustina fala do Porto, a fotografia foi tirada em Lisboa, mas telhados em ruína e alianças inesperadas existem por todo o lado e por isso me pareceu possível a associação.
    Grato pela visista. Aquele Abraço!

    Excelente «etiqueta», Ana! Um óptimo sábado para si :-)

    Tem toda a razão, Sara, a escrita de Agustina exige pausas, tem de ser «bebida» aos golinhos, como fazemos com o chocolate quente. A não ser assim, não só pode queimar como enjoa... :-) Grato pela visita. Votos de óptima Páscoa.

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  5. Gostei muito do seu blog. Voltarei.
    Obrigada e uma boa Páscoa também para si.

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  6. A Andança.

    Entro no Áspera Seda, onde o bom Michel luta contra o anonimato. No auto de um quadro de 782 faces eu encontro o Contador Antropomórfico, que possui uma bela casa sustentada por uma estaca, porém é improvável a sua casa. Ando mais um pouco, um clic, e estou em outro mundo. Ouço uma canção que não rima com nada e combina com tantas coisas. Vou. Vejo. Falo.

    Sou Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com e decidi escrever o diário da andança.

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  7. Obrigado, Sara. O sentimento é recíproco, porque também gostei muito do seu.

    Viva JefhCardoso! Obrigado pela visita. Volte sempre!:-)

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