A CASA IMPROVÁVEL

«A verdade torna-se ficção quando a ficção é verdadeira,/A realidade torna-se irreal se o real é fictício»
[Maria Ondina Braga, «O sonho do pavilhão vermelho - Angústia em Pequim»]


Era uma vez

No tempo antes do tempo existiu um rapaz chamado Jonas.
Jonas era pobre, vivia na rua, das pedras fazia travesseiros, das folhas das árvores, cobertores. Para comer, colhia, e mais não queria ou precisava que o pouco que a natureza lhe dava.
Jonas era feliz porque possuia um espelho mágico. Quando olhava o espelho via-se, não como na realidade era, mas como desejava ser. De cada sonho que Jonas sonhava, o espelho fazia a imagem. E não era tudo. Dentro do espelho via, ainda, imagens de mulheres muito belas, langorosas e carentes, fascinadas pelo Jonas criado por ele. Jonas nada mais desejava senão contemplar o mundo que assim inventava, com ele lá dentro.
Quanto tempo viveu desta maneira? Não sabia. As horas passavam ligeiras, os dias corriam sem sobressaltos. Jonas mais não fazia que olhar as imagens do espelho, porque o espelho era mágico, e por isso mostrava apenas o que Jonas queria ver, e nem mais um fio de cabelo.
É verdade que, de tempos a tempos, ouvia, à sua volta, rumores de palavras, sons alheios, sons estranhos. Habituou-se a rejeitar tais sons, fazia por ignorar o que diziam. Não queria saber de mundos fora do espelho.
Jonas viveu muitos anos confinado ao espaço mágico. Com o tempo deixou mesmo de ouvir, habituou-se a não usar a voz para falar. Não precisava. Estava só. Até que um dia deixou de ver. Ou melhor, via tão somente, com os olhos de dentro, as imagens que mais ninguém via. Então veio uma baleia e comeu-o.

The Age Of Innocence

Martin Scorsese, "The Age Of Innocence", 1993


Ach, ich fühl's


«Die Zauberflöte», K620,
Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Emanuel Schikaneder.
Pamina : Gundula Janowitz, Aix en Provence, 1963


Ach, ich fühl's, es ist verschwunden,
Ewig hin der Liebe Glück!
Nimmer kommt ihr Wonnestunde
Meinem Herzen mehr zurück!
Sieh', Tamino, diese Tränen,
Fließen, Trauter, dir allein!
Fühlst du nicht der Liebe Sehnen,
So wird Ruh' im Tode sein!

Ich habe genug


Ensemble 415, Dir: Chiara Banchini, René Jacobs (Contratenor).

Ich habe genug,
Ich habe den Heiland, das Hoffen der Frommen,
Auf meine begierigen Arme genommen;
Ich habe genug!
Ich hab ihn erblickt,
Mein Glaube hat Jesum ans Herze gedrückt;
Nun wünsch ich, noch heute mit Freuden
Von hinnen zu scheiden.

Caim

(...)De Abel sabe-se que era pastor. O seu irmão Caim era agricultor e oferecia a Deus em sacrifício uma parte da colheita. Abel quis também oferecer alguma coisa: «Também ele», "gam hu" diz a narração. E não tendo primícias, ofereceu os primogénitos do seu gado. É a primeira vez, e por isso Deus volta-se para esta nova espécie de sacrifício. As traduções aqui falam duma preferência, de um tratamento de favor da parte de Deus. Mas a escritura hebraica usa aqui um verbo bastante raro, "sha'à" (15 casos), que estará duas vezes na boca de Job quando, extenuado pelo sofrimento, grita a Deus: «Como não te afastas de mim, e nem ao menos permites que engula a minha saliva?» (Job 7,19) E ainda mais um igual convite a deixar em paz o homem, a não fincar nele o olhar: «Desvia-te dele, para que repouse» (Job 14,6). E também David no salmo 39 pede com um verbo categórico a Deus: «Desvia-te de mim para que eu me restabeleça» (Sl 38,14). Não é um olhar de favor o de Deus sobre Abel, mas Caim interpreta-o assim porque a oferta atraiu a atenção de Deus, afastando-se das primícias por ele trazidas. E Deus toma consciência daquele sentimento furioso e procura avisar Caim de que nele existe um mal que está a crescer como uma inundação: chama àquela febre "teshuká", uma enchente de águas que transbordam.
Mas aquele irmão Abel tirou-lhe algo mais, intrometendo-se entre ele e Deus. Matá-lo será um acto de puríssima inveja. Porque é esta desde o início a relação entre Deus e o ser humano: de amor exclusivo e recíproco, ao ponto de escrever nas palavras do Sinai que Deus é "El kanná", Deus invejoso que não admite infidelidade.
A esta paixão sucumbe, Abel, ignorante, que no fundo imitava Caim nas ofertas, porque desejava a mesma coisa: ser também ele apaixonadamente amado por Deus.




«que diabo de deus é este que, para enaltecer abel, despreza caim
José Saramago

Angústia

«Esta noite acho que chamei pela minha mãe, ouvi-me chamar por ela no sono. Vivíamos à beira de um rio, e não sei quem levou-me para a outra banda e me abandonou lá. Ou teria eu ido de moto próprio, passado o rio a vau, e agora as águas subiam e cobriam-me? Ou foi a família toda que atravessou para a margem oposta deixando-me para trás? Um antigo sonho mau a empecer-me esta noite em Pequim.» [Maria Ondina Braga, «Angústia em Pequim», edições rolim, p.155]

A noite passada acho que gritei pela minha mãe, ouvi-me gritar por ela no sono. Estava dentro de uma casa, que mais parecia uma caverna. Ou seria um labirinto? E quem a enfiou lá dentro? Entrei por uma porta, alta, para ir ter com ela. Atravessei quartos e quartos e quartos, percorri corredores, cada vez mais estreitos, à medida que eu caminhava, e ela sempre mais longe. Ouvi-me dizer a mim própria, «chega de caminho, pára!». Acordei ao som do meu grito.

Dúvidas

«Quando temos Deus dentro de nós, é para sempre. Não há dúvidas. Podemos ter outras dúvidas, compreende? Mas essa dúvida específica nunca mais a temos. Não, nunca tive dúvidas. [...]Mas estou convencida de que é Ele e não eu. De que a obra é Dele, e não minha. Eu apenas estou à Sua disposição. Sem ele nada posso fazer. Mas nem Deus pode fazer o que quer que seja por uma pessoa que já esteja cheia. Temos de estar completamente esvaziados para O deixar entrar e fazer o que Ele quiser. Essa é a parte mais bela de Deus, compreende? Ser omnipotente, mas não Se impor a ninguém.»
[Madre Teresa, «Vem , sê a minha Luz", Alêtheia Editores, p.264]

Perfeição

O que me tranquiliza é que o mal não existe.
O que nos parece ser mau mais não é que a incapacidade triste de fazer o bem.
Tudo o que existe é produto da bondade de Deus,
ainda que a bondade intrínseca das coisas nem sempre chegue até nós.
A verdade é que o bem nos atinge como um sentido secreto das coisas,
e só no fim de tudo adivinhamos, confusos, a perfeição de Deus.

Vidas vencidas

«Que eu, toda triste, acho que não sou. O certo é que tanto por mim mesma como pelo próximo, sei mais de tristeza que da alegria. Sou assim como se, dia a dia, me defrontasse com a figura do desengano. Mais até talvez que desengano. Da destruição.
E eis que me acode agora à ideia folhear um antigo caderninho de notas e revelar aqui as minhas juvenis reflexões: "Sou como a Fénix da lenda. Morro e ressuscito. Morro não em ninho de chamas olorosas mas sim na sequidão de um deserto. Que do meu coração quebrado, o renascimento me vem das histórias que crio. As vidas das histórias."
De resto, o enfado das rezas, nessa idade. Pior que enfado, esgotamento. Preces desatentas, as minhas, devido ao peixe dourado do aquário, os círculos que o peixinho desenhava, para trás e para diante, à volta do vidro. Também aos quatro continentes no tecto da sala: Europa, Ásia, África, América. Tão velha a casa que, ao ser construída, decerto não se conhecia ainda a Oceânia.
'Perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas como nós perdoamos'... Rezava-se.
E eu que, então, perdoava tudo. Não hoje, que já sofri de mais.
A ladainha de Nossa Senhora, a criada Elisa quem a recitava num latim estragado: 'Túrris ebúrnea... Janua Caeli...' E nós: 'ora pro nobis, ora pro nobis'. E logo ela! Que entenderia de tal língua? O que seria, afinal, tanto para ela como para nós, aquela arremedada melopeia? Rezava-se à noite e às escuras, para se poupar electricidade.
Na Avenida, contudo, os candeeiros da iluminação pública. Quando não lua cheia na abóbada celeste. Parecia, porém, que se via melhor sem luz. Os rebrilhos do peixe na escuridão líquida e límpida. Os baixos-relevos em estuque no tecto.
Depois de terminadas as orações, a mãe inquieta por causa da galinha de choco na adega. Nem era para menos. Uma semana inteira a pedrês sem sequer engolir um grão. De febre? De fastio? Ai se amanhã de manhã a encontrava morta! Os pintainhos prestes a picar os ovos. Santantoninho!»

[Maurice Béjart - "Brel Barbara"]

Avec Elegance

Se sentir quelque peu romain
Mais au temps de la décadence
Gratter sa mémoire à deux mains
Ne plus parler qu'à son silence
Et
Ne plus vouloir se faire aimer
Pour cause de trop peu d'importance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sentir la pente plus glissante
Qu'au temps où le corps étais mince
Lire dans les yeus de ravissantes
Que cinquante ans c'est la province
Et
Brûler sa jeunesse mourante
Mais faire celui qui s'en dispense
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sortir pour traverser des bars
Où l'on est chaque fois le plus vieux
Y éclabousser de pourboires
Quelques barmans silencieux
Et
Grignoter des banalités
Avec des vieilles en puissance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Savoir qu'on a toujours eu peur
Savoir son poids de lâcheté
Pouvoir se passer de bonheur
Savoir ne plus se pardonner
Et
N'avoir plus grand chose á rêver
Mais écouter son coeur qui danse
Etre désespéré
Mais avec espérance

Jacques Brel

Estranhos

«As mulheres e homens que vêm da feira, elas com gamelas à cabeça e eles desasados e de cântaros na mão, passam-me debaixo das janelas como estranhos, que me são.
Dentro de qualquer panelita ou tacho de barro um punhado de sardinhas... E vão, devagar, trajados de domingo, calçados... E eu olho-os indiferente, pensando apenas no barro antiquíssimo de que eles se servem, na petinga salgada que comem, nas suas vidas, paralelas, e jamais concordes, jamais fundíveis com a dos bons proprietários.»
[Irene Lisboa, «Solidão» II, p.222]

Eis-me aqui



[foto daqui]

«Chamar 'tu' a Deus, com variantes que vão da imprecação à súplica, é o arbítrio maravilhoso da criatura que remonta à sua origem e a interroga, por ela chama e a sacode na distância. Quem pela primeira vez exclamou a primeira oração não a pode ter inventado. Só pode ter reagido a um chamamento com uma resposta, como Abraão com o seu "hinnèni", eis-me aqui. Eis-me aqui é a primeira palavra, a premissa de toda a oração. A criatura separa-se do resto da espécie e da criação, exclui-se para estabelecer a relação. A oração acontece sempre numa extremidade do campo. Lê-se no salmo 78: "E conduziu-os à sua morada santa" (Sl 78,54). Deus leva os hebreus para o deserto, porque aquele é o lugar do encontro. Não os chama num centro, numa praça, mas no isolamento inóspito do vento e do pó.
No deserto: é este o lugar físico da oração. O crente cria o vazio à sua volta e desta forma faz acontecer o encontro


[Erri De Luca, «Caroço de Azeitona», Assírio & Alvim, p.7]

Jacques Brel - «L'amour est mort»

Imagem



[
The Lady from Shanghai, Orson Welles, 1947; foto daqui]

Espelhos. Espelhos quadrados, rectangulares, em ângulos apertados, reflectiam a imagem, reproduzindo-a até ao infinito. Olhava-a e não se reconhecia. Sentia a vida a afunilar-se naquela imagem de si, sobreposta em camadas, até à náusea mais absoluta. Ansiava espaço, horizonte, ir além daquela visão distorcida de si. Ansiava cor. Ansiava mundo.
Voltar ao princípio, à matéria essencial, à forma pura.
Recriar o mundo.

Ninguém ama de olhos fechados

Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.


Albano Martins, «Palinódias, Palimpsestos»
[ poema 'surripiado' no «ComLivros-Teresa»; ver ainda uma entrevista, aqui]

Responsabilidade involuntária



«Naquele tempo, tentei muitas vezes falar com amigos meus sobre o problema: imagina que alguém corre conscientemente para a sua ruína e que tu podes salvá-lo - o que farias? Imagina uma operação e um doente que tomou drogas que são incompatíveis com a anestesia, mas que se envergonha de ser um drogado, e não o quer dizer ao anestesista - ias falar com o anestesista? Imagina um processo em tribunal e um acusado que vai ser punido porque não confessa que é canhoto e por isso não pode ter cometido aquele crime, que foi cometido por um mão direita, mas que tem vergonha de ser canhoto - irias dizer ao juiz o que se está a passar? Imagina que é um homossexual, que não pode ter cometido aquele acto, mas que tem vergonha de ser homossexual. Não se trata aqui da questão de uma pessoa se envergonhar por ser canhoto ou homossexual: imagina, apenas, que o acusado tem vergonha. (...)
- Não, o teu problema não tem uma solução agradável. Naturalmente que temos de agir se a situação que descreveste é uma situação que implica uma responsabilidade involuntária ou uma responsabilidade que decidimos assumir. Ao sabermos o que é melhor para o outro, e sabendo que ele se nega a vê-lo, temos de tentar abrir-lhe os olhos. Devemos deixar-lhe sempre a última palavra, mas temos que falar com ele, com ele e não com outra pessoa nas suas costas.»

[Bernhard Schlink, «O Leitor», Ed. Asa, p.90, 91 e 94]

La lluvia

Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.


Jorge Luís Borges

[é magnífico! obrigado, T.  ]

De olhos abertos

«Agora que sabia fatos sobre Martim, agora que finalmente o olhava de olhos abertos, agora ela o desconhecia. E como um cego que tivesse recobrado a visão e não reconhecesse com os olhos aquilo que mãos sensíveis sabiam de cor, ela então fechou um instante as pálpebras, tentando recuperar o conhecimento íntegro anterior; abriu-as de novo e procurou fazer das duas imagens uma só. — Eu disse... — de novo ela o olhou quieta; mas porque não precisava mais dele para nada, pôde também olhá-lo com piedade e desprezo
[Clarice Lispector, «A maçã no escuro», Relógio D'Água, p.313]

O dia era de Outono e o vento soprava em pequenas rajadas, deixando na pele ainda nua das pernas um rasto frio. Encostada ao ferro da paragem, sozinha na rua deserta, a rapariguinha fixava os olhos na linha do horizonte que marcava o início da estrada, à procura de aí ver aparecer o tejadilho verde e logo a seguir a tela branca com letras pretas, a indicar o destino, e finalmente o autocarro inteiro, rolando desengonçado, encosta a baixo, até ao sítio onde ela estava. Esperava, e enquanto esperava, anoitecia, e em breve veria acenderem-se as luzes da rua. Na estrada, o movimento não era muito. Apenas de vez em quando um carro passava, dentro seguia gente com pressa de chegar a casa, o jantar por fazer, as crianças para despachar, banho, jantar e cama. Passavam sem reparar na paragem, na rapariguinha, de pé, à espera, olhos fixos no horizonte. Passavam, apenas, rumo ao destino. E cada vez que um deles passava sem olhar, ela suspirava de alívio, confortada pela segurança de uma rua vazia. Porque os outros são uma ameça, havia-lhe ensinado a mãe. «Nunca aceites boleia», dizia ela. «Nunca! Não confies em ninguém.»

Chuva

lá fora chove. saio para receber os beijos em mim que me enviaste.
alagas-me, e eu passo a ter sentido.

[Teresa Sá Couto, Adágio]

Esquecer


Jeff Buckley, Forget her

Não posso adiar o amor


[imagem da Nasa]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração
.

[ António Ramos Rosa ]

...le verbe aimer...

Un baiser, mais à tout prendre, qu'est-ce ?
Un serment fait d'un peu plus près, une promesse
Plus précise, un aveu qui veut se confirmer,
Un point rose qu'on met sur l'i du verbe aimer;
C'est un secret qui prend la bouche pour oreille,
Un instant d'infini qui fait un bruit d'abeille,
Une communion ayant un goût de fleur,
Une façon d'un peu se respirer le coeur,
Et d'un peu se goûter, au bord des lèvres, l'âme !


[Edmond Rostand, «Cyrano de Bergerac»]

Fora da medida

Naquela hora em que chorei, vexada, sozinha, sentada, a meio da tarde?
É sempre assim que se ressumam as duas ou três lágrimas presas, de finalização de um sentimento... Dos rápidos sentimentos brincados, que mal têm significação, que nos atribuímos por desporto amargo.
É verdade! Eu gosto de pensar, mas à custa dos outros, à custa dos seus movimentos, do seu jogo de vida...
Mas furtam-mo, furtam-mo!
Furtam-mo desta maneira: acham-me imaleável para tomar nele uma boa, uma airosa e consentânea parte.
Sou dura, abrupta. E tão dura quanto repentista, simplória, ingénua, desprevenida. Acompanho mal... atribuo fora da medida. E a uma hora do dia, calha à tarde, calha à noite, as minhas duas lágrimas de liquidação vêm-me.
Tenho um círculo de solidão! Nada o preenche. E o pouco que nele entra, sai... Sai escorraçado. Sempre indigno de lá ter entrado.
Mas afinal, o que ontem deixei por dizer?
Este assunto do R. cansa-me. De todas as cores que teve, já quase não tem nenhuma.
As pessoas afastam-se de nós, nós despegamo-nos delas... e o que havia a dizer, desfez-se!
Às vezes penso, pensava: quem importa aqui?
Eu... amolecida e curiosa, desperta, depois deprimida? Talvez.
Da pessoa dele, o essencial escapou-me. É isso que me desgosta.

[Irene Lisboa, Solidão II, Ed. Presença, p.78]