No tempo antes do tempo existiu um rapaz chamado Jonas.
Jonas era pobre, vivia na rua, das pedras fazia travesseiros, das folhas das árvores, cobertores. Para comer, colhia, e mais não queria ou precisava que o pouco que a natureza lhe dava.
Jonas era feliz porque possuia um espelho mágico. Quando olhava o espelho via-se, não como na realidade era, mas como desejava ser. De cada sonho que Jonas sonhava, o espelho fazia a imagem. E não era tudo. Dentro do espelho via, ainda, imagens de mulheres muito belas, langorosas e carentes, fascinadas pelo Jonas criado por ele. Jonas nada mais desejava senão contemplar o mundo que assim inventava, com ele lá dentro.
Quanto tempo viveu desta maneira? Não sabia. As horas passavam ligeiras, os dias corriam sem sobressaltos. Jonas mais não fazia que olhar as imagens do espelho, porque o espelho era mágico, e por isso mostrava apenas o que Jonas queria ver, e nem mais um fio de cabelo.
É verdade que, de tempos a tempos, ouvia, à sua volta, rumores de palavras, sons alheios, sons estranhos. Habituou-se a rejeitar tais sons, fazia por ignorar o que diziam. Não queria saber de mundos fora do espelho.
É verdade que, de tempos a tempos, ouvia, à sua volta, rumores de palavras, sons alheios, sons estranhos. Habituou-se a rejeitar tais sons, fazia por ignorar o que diziam. Não queria saber de mundos fora do espelho.
Jonas viveu muitos anos confinado ao espaço mágico. Com o tempo deixou mesmo de ouvir, habituou-se a não usar a voz para falar. Não precisava. Estava só. Até que um dia deixou de ver. Ou melhor, via tão somente, com os olhos de dentro, as imagens que mais ninguém via. Então veio uma baleia e comeu-o.



