O sol é grande...

O sol é grande, caem com calma as aves
Em tal sazão que soía de ser fria.
Esta água que cai de alto acordar me hia
De sono não, mas de cuidados graves.

Oh cousas todas vãs, todas mudaveis,
Qual é o coração que em vós confia?
E passa um dia assi, passa outro dia,
Incertos muito mais que ó vento as naves?

Eu vira ja aqui sombras, vira flores,
Eu vira fruita ja, verde e madura;
Ensordecia o cantar dos ruiseñores!

Agora tudo é seco e de mistura:
Tambem mudando me eu, fiz outras côres.
E tudo o mais renova: isto é sem cura. 

Francisco de Sá de Miranda, Poesias de ...,
edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, INCM, p. 81


14 comentários:

  1. É um soneto, para mim, marcadamente outonal - tempo, reflexão, envelhecimento e morte. Muito embora as interpretações dos exegetas sejam variadas e, por vezes, diametralmente, opostas. Costa Pimpão, por exemplo, dedica ao soneto nada menos de 57 páginas ("Escritos Diversos", 1972), optando por localizar o tempo do poema no início da Primavera.
    Mas, seja como for, têm magia aquelas palavras: "O sol é grande, caem com a calma as aves/..." É dos inícios Supremos, em poesia.
    Gostei imenso que tivesse acasalado com Bach.

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  2. O livro da INCM é enorme e tenho-o lido, um soneto de cada vez, sem qualquer método. Este «ficou-me», creio que pela poderosíssima imagem inicial, que é, de facto, mágica. Não tinha reparado que é um poema outonal (agora que menciona este aspecto, espanto-me como não vi), mas achei-o «sintonizado» com o meu «tempo interior», e por isso o escolhi. A "Chaconne" de Bach, pelo violino, pareceu-me o «acasalamento» óbvio. Oiça, por favor, a mesma música no piano:
    http://vimeo.com/13857516 Não é a mesma coisa, pois não? E, agora, depois do seu comentário, ocorreu-me que o violino é o instrumento associado à morte, e esta poderá ser a razão...
    Como sempre fico-lhe grata por me ajudar a «ver» o que, para mim, é tão obscuro. E, sabendo, como sei, que é o seu Poeta Maior, fico muito feliz por saber que gostou da associação musical.

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  3. A "Chaconne" de Bach é muito bonita tal como o soneto de Sá de Miranda.

    A queda calma das aves, o sol, as cores e o lamento do violino tornaram a tarde um pouquinho mais suave porque esta chuva não lava a alma.
    Obrigada!
    Abraço.

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  4. O tanto que breves linhas dizem...

    Sempre um imenso prazer visitar esta casa!

    Forte Abraço de Longe,

    LFA/NBJ

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  5. Às vezes quando leio Sá de Miranda no Arpose penso que o tenho de reler: «Agora tudo é seco e de mistura: / Também mudando-me eu, fiz outras cores. / E tudo o mais renova: isto é sem cura.»
    Adorei este poema que escolheu e a música de Bach que é um dos meus compositores preferidos.

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  6. Sempre um enorme prazer em reencontrá-lo, aqui ou na sua bela «casa», meu Caro NanBanJin!
    Retribuo, com gosto, esse Abraço.

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  7. Grata, MR. Às vezes parece que estou a ler uma outra língua. Levo muito tempo a descodificar o significado e, depois, a encontrar o ritmo. Mas quando consigo, é sempre um grande prazer. E partilho a sua preferência por Bach. Ainda bem que gostou!

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  8. As aves não caem com calma...
    Caem com a calma (i.e. calor).

    A.M.

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  9. Para A.M.: Fui verificar se me teria enganado a transcrever e não enganei. O verso é mesmo «O sol é grande, caem com calma as aves». Curiosamente, para mim faz mais sentido assim, porque «o sol é grande» no ocaso, e não a meio do dia. E quando o sol se põe, as aves planam. Creio que isto terá a ver com os específicos ventos que nessa altura sopram, por via das diferentes temperaturas entre a terra e o mar. Por isso, para mim, o «cair com calma das aves» quer dizer que planam. Foi, pelo menos, essa a imagem que me veio à ideia quando li. Em qualquer caso, admito, perfeitamente, que posso estar enganada. Apenas sei que transcrevi precisamente o que li.
    Grata pelo seu comentário. Espero encontrá-lo por aqui mais vezes.

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  10. Desculpe-me c. a., desculpe-me A.M., vir aqui "trialogar" sobre o soneto de Sá de Miranda. Ele consta de 4 documentos credíveis. Com variantes maiores ou menores. A saber ,as edições póstumas de:
    -1595, feita sobre manuscrito autógrafo, por D. Jerónimo de Castro.
    -1614, que traz também uma biografia do poeta do Neiva, feita por Gonçalo Coutinho(?).
    - e mais 2 manuscritos compulsados por Carolina Michaelis, para a edição de Halle, donde c. a. transcreveu a versão que aqui se lê no blogue. Os manuscritos, autógrafos de Sá de Miranda,eram pertença de: família e da casa real portuguesa. Há cerca de 10 anos, um destes manuscritos estava na mão de Pina Martins, grande estudioso do Poeta, que prometeu uma edição crítica, mas nunca a fez.
    Se a versão, mais conhecida, do 1º verso do soneto é, realmente: "O sol é grande, caem co'a calma as aves..." (como consta da edição de 1595), na 2ºedição (1614), o verso inicial já é:
    "O Sol he grande, caem com as aves...". E a versão preferida por C. Michaelis, segue, também um manuscrito autógrafo e, por isso, é tão válida quanto as outras. Podemos preferir, subjectiva e pessoalmente, uma das versões. Mas não podemos afirmar que a versão correcta: "é".
    Porque todas elas são de Sá de Miranda que disse da sua arte e ofício:
    "Tardei, e cuido que me julgam mal,
    qu'emendo muito e qu'emendando dano,
    (...)
    Todos a tudo o seu logo acham sal;
    eu risco e risco, vou-me d'ano em ano:
    ..."
    Em resumo: acho que devemos aceitar as versões diversas, porque todas são oriundas da mão de Sá de Miranda, embora de tempos diferentes.

    Desculpe c. a., desculpe A.M., este enorme "testamento".

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  11. Muito grata, APS. Fico agora a perceber melhor por que razão, no seu comentário anterior, refere a existência de várias interpretações, umas que situam o poema no início da Primavera, outras que o associam mais ao tempo de Outono. E confesso que também prefiro esta versão... :-)

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  12. Eu sou o A.M. do comentário anónimo acima...
    Agradeço a atenção a c.a. e a APS (aqui também a lição...).
    Confesso todavia que prefiro 'com a calma'...
    Mas ignorava, já se vê, as variantes e toda a problemática evidenciada por APS (mais uma vez, pela minha parte, muito obg).

    A.M.

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